Transportar água na peneira

É verdade evidente por si mesma que não há conhecimento sem entendimento, nem ciência sem pessoas.

A dificuldade em compreender e aceitar os processos de escala geológica, por detrás da tectónica de placas e movimento dos continentes, derivou da escala temporal em que se medem, tão afastada da escala humana. A noção intuída de tempo está associada à experiência e às emoções, o conceito é construído pela racionalidade.

O declínio pavoroso na demografia portuguesa é visível nas estatísticas, mas as pessoas vivem o seu dia a dia como se nada estivesse em alteração. O dia de amanhã é igual ao de ontem, qual mudança? Só quando viajamos para outros países, Brasil, Tailândia, Angola, é que temos um choque: tantos jovens!

Na universidade portuguesa, o clima é de susto: não haverá alunos suficientes. E observa-se uma corrida pela atração de estudantes estrangeiros, para que haja população estudantil que aguente e justifique as estruturas e os quadros de funcionários existentes.

O susto é mais evidente na periferia, mas as universidades dos maiores centros populacionais já se sentem acossadas. E o medo é mau conselheiro. Isto é um aviso, não uma acusação: sem estratégia e pensamento, apenas no afã de conseguir gente que pague propinas e encha as salas, corre-se o risco de abandonar os mais qualificados à predação de concorrentes mais prestigiados ou apetrechados e apenas recrutar nos estratos de menos qualidade ou nas origens menos prometedoras. Será um tiro no pé – porque, conseguindo recrutas no imediato, a qualidade dos cursos sofrerá e, concorrentemente, a capacidade de atração do que interessa virá progressivamente diminuída, em vez de afirmada.

E a ciência portuguesa, já tão carenciada de mão de obra nativa, observará um processo de contração a prazo, em linha afinal com a contração geral de um país a definhar.

Urge, portanto, reforçar um apelo nacional consciencializador, e depois mobilizador – e contribuir para o desenho de estratégias de construção de prestígio em mercados-alvo criteriosamente selecionados. É preciso que alunos, investigadores, cientistas queiram escolher Portugal porque é local de excelência, e não porque o país é lindo e o custo de vida barato.

A ciência portuguesa é um aliado natural, um instrumento a ser bem usado, para uma estratégia de construção de prestígio. Não se fique apenas pelas virtudes escolares.

Não vale a pena aquam in cribro gerere, antiquíssima versão latina do tropical tapar do sol. Portugal precisará desesperadamente de massiva imigração, ou não será mais. Melhor ter um pensamento por detrás da ação do que deixar correr o marfim. Prestigiar uma política assim será necessário, porque sabemos das pulsões hostis que podem ser despertadas por atuações simplistas, que é o mesmo que dizer desastradas.

Sendo a ciência portuguesa, no presente, socialmente prestigiada, será uma das alavancas mais úteis para dar imagem positiva a uma saudável política de imigração, tão necessária à sobrevivência deste notável país em perigo.

 

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