Black Friday ou Circular Monday? Quando o (des)equilíbrio importa

Sistemas desequilibrados tendem a traduzir-se em diferentes sinais ao longo do tempo, pelo que devemos permanecer atentos aos riscos e a cenários insustentáveis. É possível identificar múltiplas derivações deste fenómeno em várias áreas, desde a mecânica, os sistemas elétricos, as estruturas civis, as redes informáticas, a biologia e as geociências, entre outras. No que diz respeito à utilização de materiais e ao impacto nos macro-ecossistemas, enfrentamos níveis de extração sem precedentes de todas as classes de matérias-primas e combustíveis fósseis – bem como níveis recorde de produtos e resíduos descartados por todo o nosso frágil planeta. 

Só na Europa, e de acordo com dados de referência da Eurostat de 2022, foram geradas mais de 2.233 milhões de toneladas de resíduos (cerca de cinco toneladas per capita). O Modelo de Economia Linear – extração > transformação > utilização > eliminação e poluição – tornou-se tão comum e dominante que quase parece uma norma dogmática a nível global. Apesar das agendas intergovernamentais e de alto nível, desenhadas para medir e incentivar um sistema baseado na Economia Circular, a evolução recente é, no mínimo, desanimadora. Nos dados relativos a 2015, compilados no Circular Gap Report, apenas 9,1% dos materiais consumidos na economia global eram reciclados; já no que diz respeito a 2024, essa métrica caiu para 6,9%. Uma leitura direta deste número mostra que continuamos a agudizar o problema em vez de o resolver – vivendo, de facto, numa economia que é 93,1% linear! 

Este desequilíbrio material no consumo e no uso sustentável de recursos naturais pode ser ilustrado com outras métricas tangíveis e de fácil compreensão, como o Earth Overshoot Day. Para o conjunto de países da União Europeia (UE), esta data correspondeu, em 2025, a 29 de abril. Isto significa que, entre 1 de janeiro e 29 de abril de 2025, a UE consumiu o equivalente a todos os recursos biogénicos sustentáveis disponíveis para todo o ano – basicamente, três vezes mais. No que toca a Portugal, o Overshoot Day de 2025 ocorreu a 5 de maio, colocando o país ao mesmo nível do fraco desempenho geral da UE. 

Qualquer cidadão minimamente consciente (ou mesmo aquele menos consciente) pode facilmente identificar os sinais deste sistema, profundamente desequilibrado: poluição generalizada de resíduos (nos solos, passeios, estradas, rios, mares, praias e na qualidade do ar, entre outros); notícias sobre instalações de tratamento de resíduos sobrecarregadas e dispendiosas e aterros subdimensionados; declínio observável da biodiversidade, e.g., insetos e outros pequenos organismos em habitats naturais. Ao longo das décadas, o Modelo de Economia Linear tem sido sustentado pelo engenho humano, pelos avanços tecnológicos e de produção, pela globalização industrial e pelas estratégias inovadoras de marketing; estas têm ajudado a manter o status quo, fornecendo aos cidadãos “uma dose confortável de dopamina” ao adquirirem novos produtos de que necessitam – e muitos outros de que não necessitam. 

Estratégias comerciais e de marketing, como o Boxing Day, a Cyber Monday ou a bem conhecida Black Friday, são claros exemplos. A Black Friday começou como um único dia por ano (a sexta-feira após o Dia de Ação de Graças, nos E.U.A.) e evoluiu para uma semana – sendo que, atualmente, traduz-se em quase um mês inteiro de promoções e de vendas. Nesta realidade altamente desequilibrada criada pelo ser humano – que nos afeta através do impacto ambiental e social (menor qualidade de vida, maior fragilidade e doenças, etc.) e põe em risco um futuro sustentável para as gerações vindouras -, precisamos de repensar o verdadeiro valor da Economia Linear como “o paradigma de desenvolvimento obrigatório”. 

Será que precisamos, efetivamente, de “uma dose alta de dopamina após comprar novos produtos em grande escala”, como sinónimos de maior qualidade de vida, mais saúde ou realização pessoal? Ou podemos, como cidadãos-consumidores e organizações, adotar Modelos de Economia Circular mais eficazes, através de uma abordagem de consumo consciente e de uma mentalidade de gestão responsável de produtos e bens? Escolhas conscientes e responsáveis, cuidado adequado dos produtos e a adoção de modelos de servitização podem (re)ativar estratégias validadas e testadas ao longo de séculos: recusar o que não necessitamos, reduzir, reutilizar, reparar, recondicionar/reproduzir, e melhorar a reciclagem e a recuperação de materiais – ao mesmo tempo que promovem a preservação e a regeneração dos ecossistemas naturais. 

Resumindo, devemos encontrar a motivação necessária para compreender as vantagens das Circular Mondays, e almejar as Circular Weeks, na busca de um sistema equilibrado e de um futuro sustentável. 

 

Por António Baptista, investigador na área de Engenharia de Sistemas Empresariais
e Presidente da Comissão Técnica para a Responsabilidade Social do INESC TEC

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