Como é que 44 anos de docência e de investigação cabem numa tarde? João Peças Lopes, diretor do INESC TEC e docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) por mais de 40 anos, mostrou a um auditório de quase 500 pessoas porque é que o chamam “o papa das eólicas”.
“Transição energética nos sistemas elétricos – desafios e oportunidades técnicas” – foi este o título que João Peças Lopes escolheu para a sua última aula, lecionada no dia 23 de janeiro, no auditório principal da FEUP.
Bastava entrar na sala para se perceber que aquelas cadeiras todas cheias só podem significar que o auditório estava perante alguém que marcou profundamente toda uma geração de estudantes, colegas docentes e investigadores, mas também muitas pessoas ligadas à indústria e até à política. E, se dúvidas houvesse, bastou que começassem as intervenções iniciais para se ter a certeza.
É que João Peças Lopes foi responsável por centenas de publicações ao longo da sua carreira, liderou inúmeros projetos nacionais e internacionais, orientou dezenas de teses de mestrados e mais de 40 de doutoramento em Portugal e no estrangeiro, é Fellow do IEEE e um membro ativo de muitos comités técnicos de relevo nacional e internacional na área e ensinou muitos daqueles que hoje têm uma posição de destaque nacional e internacional no domínio dos sistemas de energia. Mas é o próprio que diz que teve o privilégio de trabalhar com gigantes e que “a ciência é feita em equipa”.
As intervenções iniciais ficaram a cargo de cinco pessoas – Rui Calçada, diretor da FEUP, Jean Barroca, Secretário de Estado da Energia, Manuel Ricardo, diretor do departamento de engenharia eletrotécnica e de computadores da FEUP e diretor do INESC TEC, João Claro, presidente do INESC TEC e docente da FEUP, e Bernardo Silva, investigador do INESC TEC, docente da FEUP e “mestre de cerimónias” da última aula de João Peças Lopes.
Rui Calçada fez logo a primeira intervenção e quis que a plateia percebesse, de forma clara, que estavam perante “uma referência intelectual, um construtor de pontes entre a ciência, a engenharia, a política pública e a sociedade”. Já o Secretário de Estado da Energia, agradeceu, em nome do Governo português, tudo o que João Peças Lopes fez ao longo destes anos nas políticas públicas nacionais e frisou “continuamos a contar consigo”, destacando-o como uma “figura central não só desta faculdade, mas do sistema elétrico nacional”. Seguiu-se Manuel Ricardo, que fez questão de recordar a audiência que, muito antes de alguns dos temas que hoje em dia são “normais”, no que ao sistema elétrico diz respeito, se tornarem consensuais, já que João Peças Lopes os colocava “no centro do ensino e da decisão”. Não terminou a sua intervenção sem antes dizer que o departamento que dirige propôs a nomeação de João Peças Lopes como Professor Emérito da Universidade do Porto por uma vida dedicada à ciência, à universidade e ao serviço público, proposta essa que já foi aceite. João Claro, presidente do INESC TEC, definiu-o como uma “referência incontornável em sistemas de energia” e agradeceu por tudo o que colocou e continua a colocar ao serviço do INESC TEC.
Coube ao “mestre de cerimónias”, Bernardo Silva, dar mais detalhes sobre a vida deste cientista e académico, antes de terem início os habituais testemunhos que fazem parte deste tipo de cerimónias.
Nascido em 1958, João Peças Lopes ingressou no curso de engenharia eletrotécnica da FEUP em 1976. Conclui o curso em 1981, vai para a indústria em outubro de 1981, especificamente para a EFACEC, onde permanece durante 6 meses, tendo em novembro de 1981 sido convidado para ser assistente na FEUP. Termina o doutoramento em 1988 e, realiza as suas provas de agregação em 1986. Em maio de 2000 torna-se professor associado na FEUP e apenas oito anos depois passa a professor catedrático. Pelo meio, coordena o centro de sistemas de energia do INESC TEC. Um ano depois de se tornar catedrático na FEUP, surge um convite do outro lado da rua. Em 2009 torna-se, assim, administrador do INESC TEC, cargo que ocupa até 2018. Em 2016 torna-se Fellow member do IEEE. Desde 2018 que ocupa o lugar de diretor do INESC TEC, onde abraçou o desafio de coordenar uma das áreas setoriais do INESC TEC ligadas à inovação, a da energia. O currículo é naturalmente muito mais extenso do que esta pequena síntese, mas as estórias que foram contadas durantes os testemunhos completaram esta história e percurso de vida e de carreira.

Foram oito os testemunhos sobre João Peças Lopes: Aurélio Tavares, Nikos Hartzaghiriou, professor da Universidade Técnica de Atenas, João Paulo Rosado Correia, assessor jurídico do concurso das eólicas na qual Peças Lopes foi presidente do júri, Jorge Vasconcelos, antigo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), João Torres, antigo presidente da EDP Distribuição, João Conceição, CTO da REN, onde Peças Lopes é presidente do Júri do prémio REN há 12 anos, José Manuel Mendonça, presidente emérito do INESC TEC e professor emérito da U. Porto, e Ricardo Bessa, coordenador de um dos centros de investigação do INESC TEC, o ligado aos sistemas de energia.
A expressão “papa das eólicas” surge através de João Paulo Rosado Correia, que explica que era assim que chamavam a João Peças Lopes. Durante o testemunho, João Rosado Correia brinca dizendo que ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer “sua eminência” quando lhe disseram que seria este académico a ser o presidente do júri. E destaca “uma liderança serena e firme”.
Sempre acutilante, o antigo presidente da ERSE, referiu-se a João Peças Lopes como “uma singularidade neste universo académico”. “Foi parte ativa daquela geração académica que soube e quis transformar e prestigiar a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a Universidade do Porto”, referiu. E, foi mais além: “foi, sem sombra de dúvidas, no último quartel do antigo século e no primeiro quartel deste século, a maior personalidade a colocar Portugal no mapa mundi dos sistemas de energia”. Não terminou sem antes deixar uma sugestão – “gostaria, da próxima vez que vier à FEUP, de ver uma placa muito simples com o nome “João Peças Lopes” (…), é que num mundo em que agora só aparecem aqueles que gritam e que negam a ciência, importa homenagear quem a prestigia”.
Uma das histórias muito recentes onde João Peças Lopes teve um papel de extremo destaque foi contada pelo CTO da REN a propósito do apagão da Península Ibérica. João Conceição chamou-lhe “o blackstart do conhecimento para questões técnicas” e disse que, na REN, sempre que têm alguma dúvida ou encontram alguma dificuldade é a ele que recorrem para os ajudar.
José Manuel Mendonça contou várias estórias durante o seu testemunho, onde fez questão de dizer que trabalhou 20 anos “com o João Abel na construção de uma instituição verdadeiramente excecional”, onde, entre muitas outras conquistas, conseguiram aprovação para construir um laboratório de redes elétricas inteligentes e veículos elétrico, hoje chamado “x-energy lab do INESC TEC”, uma nomenclatura que, de acordo com o presidente emérito do INESC TEC, “está mais alinhada com a geração z, mas que foi a menina dos olhos do João Abel pelos anos 2011”.
Ricardo Bessa deu conta dos artigos escritos por João Peças Lopes, alguns deles com mais de 3 mil citações, mas apenas para referir que isso é pouco importante quando comparado com o legado de docentes que deixou na FEUP e de cientistas que ajudou a formar no INESC TEC. Deu ainda a conhecer uma expressão que lhe foi ensinada por João Peças Lopes – o footprint – e que hoje percebe – ou, pelo menos, acha que percebe, como referiu, que é o conhecimento, mas também o grau de exigência ou a dimensão internacional. Confessou que todas as reuniões com João Peças Lopes começam com “sim, mas isso já está feito” e que “tudo que é inspirador tem uma pitada de irracionalidade” e ainda que “graças a ele conseguimos ir além do sonho”.
Foi visivelmente emocionado que João Peças Lopes subiu ao palco para – finalmente – dar a sua última aula sobre transição energética nos sistemas elétricos, onde começou por dizer que as alterações climáticas já não são ameaças, mas factos. Foram muitas as lições que deu durante uma hora de aula, desde o que aconteceu ao sistema elétrico português e espanhol durante o apagão, a questões relacionadas com energias renováveis, entre outras. Falou da necessidade de eletrificação da economia e da sociedade, de novas formas de carregamentos de veículos elétricos, da caraterização dos futuros consumos de eletricidade de data centres e da cripto mineração de moedas, da operação de eletrolisadores de grandes dimensões para a produção de hidrogénio, concluindo com a necessidade de promover uma eletrificação suportada por eletricidade gerada a partir de fontes renováveis, porque só isso contribui para a descarbonização da economia, criando grandes oportunidades para o desenvolvimento industrial, económico e a criação de empregos qualificados.
Antes do momento musical e de homenagem, João Peças Lopes, como já referido, não abandonou o palco sem antes dizer que “a ciência é feita em equipa” e de deixar uma palavra muito especial ao INESC TEC “por me ter dado todas as condições para desenvolver este trabalho”. Despediu-se com uma convicção – “o trabalho que se faz na academia só faz sentido se for feito com a economia e a indústria”.

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