A propósito do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência

Durante séculos, ideias baseadas nas obras de Hipócrates – nascido em 460 a.C. e considerado uma das figuras mais importantes da história da Medicina – influenciaram estudos filosóficos modernos, como Kant ou Rousseau. Essas obras sobre como a natureza feminina não combinava com a intelectualidade atravessaram a Antiguidade e a Idade Média e chegaram inclusivamente até Darwin que, nas publicações “A origem das espécies” (1859) e “A descendência do homem e seleção em relação ao sexo” (1871), colocava o sexo feminino como intelectualmente inferior na espécie humana.

Se tanta influência houve ao longo de séculos sobre esta ideia de que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens, devemos espantar-nos quando, em pleno século XXI, continuamos a discutir igualdade de oportunidades ou de acesso?

Muitas mulheres marcaram a história da ciência com descobertas fundamentais, superando barreiras de género e outros preconceitos relativamente à sua capacidade ou papel na sociedade, mas as suas descobertas nunca tiveram a visibilidade das dos homens ou… foram atribuídas a homens.

Além das incontornáveis mulheres que marcaram a história da ciência no século XX, tais como Marie Skłodowska Curie – 1.ª mulher a receber um Prémio Nobel -, Ada Lovelace – a primeira programadora -, Rosalind Franklin – que descobriu a estrutura do DNA -, Katherine Johnson – astronauta da NASA -, Lise Meitner – responsável por descobrir a fissão nuclear -, Hedy Lamarr – atriz e inventora, precursora do Wi-Fi, ou Jaqueline Goes de Jesus, biomédica brasileira que liderou o sequenciamento do genoma do vírus SARS-CoV-2 na América Latina, merece também destaque, em tempos mais remotos, a astrónoma Hipátia de Alexandria (c. 350-415).

Também fora do contexto ocidental, há exemplos marcantes, tais como: Tu Youyou, cientista chinesa, Prémio Nobel da Medicina, cuja pesquisa foi decisiva no combate à malária, Katsuko Saruhashi, geoquímica japonesa, primeira mulher eleita para o Conselho de Ciência do Japão, famosa por medir dióxido de carbono na água, ou Deborah Ajakaiye, geofísica nigeriana, primeira professora titular de física na África Ocidental.

Portugal conta igualmente com diversas cientistas notáveis, de outras eras e contemporâneas, que se destacaram na medicina, biologia, física e engenharia, que incluem Maria de Sousa (imunologia), Laura Ayres (virologia), Branca Edmée Marques (radioatividade) e investigadoras atuais como Maria Manuel Mota (malária) e Mónica Bettencourt-Dias (biologia celular), reconhecidas internacionalmente pelos seus contributos.

O projeto Mulheres na Ciência – Ciência Viva reúne, em vários volumes, os retratos de centenas de cientistas portuguesas no ativo, tornando visível uma parte importante deste talento que, durante tantas décadas, ficou escondido.

Esta lista poderia ser muito mais longa e, ainda assim, corresponder apenas às mulheres de que hoje temos memória, ou que, de alguma forma, acabaram por ser reconhecidas. Resta imaginar quantas mais teriam contribuído para o progresso científico, social e cultural se tivessem tido as mesmas oportunidades que os homens do seu tempo.

Felizmente, é tentador pensar que nos dias de hoje as coisas são diferentes e que todas as pessoas têm exatamente as mesmas oportunidades de alcançar e realizar o seu pleno potencial, em qualquer área. Mas será mesmo assim?

Estabelecido pela ONU em 2015, o Dia internacional das Mulheres e Meninas na Ciência é assinalado a 11 de fevereiro com o objetivo de promover, de forma plena e igualitária, o acesso à ciência e a participação de mulheres e meninas nessa área.

Sabemos que os estereótipos de género continuam a influenciar as escolhas das meninas no que diz respeito ao percurso académico que pretendem seguir, não obstante termos recordado acima algumas mulheres que ultrapassaram todos os preconceitos, e obstáculos, tornando-se referências no mundo das ciências.

Mas será apenas por isso que as mulheres não têm uma apetência “natural” pela ciência? Ou estaremos perante fenómenos mais profundos de reconhecimento desigual?

Será que o “Efeito Matilda” – uma expressão criada por Margaret W. Rossiter[1] para designar o fenómeno de um potencial enviesamento a favor dos académicos do sexo masculino, relegando para segundo plano mulheres que tanto contribuíram para o mundo da ciência – continua a fazer-se sentir? E que as mulheres que realizam atividades científicas – na academia, na investigação, na indústria – continuam a ser relegadas para segundo plano, com papeis auxiliares e sem o devido reconhecimento do seu contributo?

Os exemplos abundam: Lise Meitner e Rosalind Franklin são hoje casos paradigmáticos desta falta de reconhecimento, tal como Jocelyn Bell Burnell, Svetlana Mojsov, Katalin Karikó, Donna Strickland, entre muitas outras.

As histórias de Katalin Karikó ou de Donna Strickland são exemplos claros de narrativas de esperança e de perseverança. A húngara Katalin, por exemplo, foi despromovida por insistir em trabalhar no ARN-mensageiro (ARNm) numa altura em que nem conseguia bolsas de investigação e ganhava menos do que um técnico de laboratório, segundo contou à revista Wired. Mas no seu nome não constava a palavra desistência e esta investigação acabou por levar à conquista do Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina, em 2023. Já a canadiana Donna, que só oito anos depois de obter o seu doutoramento conseguiu um lugar a tempo inteiro na academia – um facto que atribui, em parte, às dificuldades que os académicos casados, enfrentam (sendo a carreira da mulher suspensa em prol da do marido) , venceu o Prémio Nobel da Física, em 2018.

Se, à escala global, as histórias de invisibilidade e falta de reconhecimento se repetem, em Portugal surgem indicadores algo contraditórios, que pedem uma leitura atenta.

De acordo com os dados mais recentes da She Figures 2024[2] (dados de 2021), dir-se-ia que estamos no bom caminho. É que, segundo estes dados, Portugal ocupa o 10.º lugar entre os Estados‑Membros da União Europeia no índice global de igualdade de género na investigação e inovação. O país apresenta pontuações relativamente elevadas nas dimensões da participação na investigação, da segregação na cadeia de formação e dos setores de investigação, e pontuações moderadas nas dimensões de género no conteúdo de I&I, progressão na carreira e tomada de decisões.

O relatório indica ainda que Portugal alcançou o equilíbrio de género em termos da proporção de mulheres entre os doutorados, embora entre 2013 e 2021, a percentagem de mulheres doutoradas tenha diminuído de 55 % para 51 %. As mulheres representam 43 % dos investigadores em Portugal, com base nos dados de 2021. O equilíbrio de género é alcançado no setor do ensino superior e no setor público, onde as mulheres representam mais de metade dos investigadores. No entanto, as mulheres estão sub-representadas no setor empresarial, representando apenas 30 %.

O que estes números nos dizem é que, entre 2013 e 2021 houve, um progresso no número de mulheres doutoradas e da percentagem de mulheres cientistas e engenheiras na força global de trabalho, bem como uma maior percentagem de mulheres investigadoras.

Ou seja, Portugal já tem, de facto, muitas mulheres na ciência. Mas será a ciência e a investigação uma carreira aliciante para as mulheres e meninas?

No momento de escolher a área de estudos do ensino secundário ou o curso superior, as meninas poderão almejar um percurso profissional de apoio, de reconhecimento, de tratamento justo e equitativo, acreditar nas oportunidades de progressão na carreira, de liderar projetos, de participar em decisões, de realizar o seu pleno potencial?

Ainda de acordo com os dados do She Figures 2024, no que respeita à carreira, a proporção de mulheres que ocupam cargos de grau A[3]  melhorou desde 2013 (22 %), mas as mulheres continuam a ocupar menos de um terço desses cargos (28 % em 2022). Portugal está abaixo da média da UE-27 para este indicador. Quanto à participação de mulheres em órgãos de decisão, Portugal está alinhado com a média da UE-27, com 37,5%.

Porém, nas áreas das CTEM (Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemáticas) onde o INESC TEC se insere, a situação é menos favorável às mulheres do que em outras áreas científicas, desde logo quanto à remuneração. Segundo um Estudo de 2025 (com dados até 2023) intitulado “Gender Pay Gap nas profissões CTEM: evolução na última década[4], nas profissões CTEM, que englobam Engenharia, TIC e outros, a percentagem de mulheres era, globalmente de apenas 28,39% em 2023. A Engenharia sobressai como sendo aquela em que existe um diferencial remuneratório mais penalizador para as mulheres – em 2023 as mulheres desta área ganhavam 14% menos do que os homens com as mesmas características, sendo de 10% menos na área das TIC. A Lei da igualdade salarial e a Diretiva da Transparência salarial, como instrumentos normativos de política pública, têm levado as organizações a corrigir as desigualdades salariais que tendem a persistir.

Voltando a um contexto mais amplo, um estudo recentemente publicado na Revista PNAS, em janeiro de 2026, intitulado “Gender stereotypes across nations relate to the social position of women and men: Evidence from cross-cultural public opinion polls[5], constata que “trinta anos depois, os estereótipos sobre homens e mulheres pouco mudaram”. Mostra também que os estereótipos de género se mantêm quase inalterados entre 1995 e 2023, que a perceção de igualdade na competência aumentou, sobretudo em países com mais mulheres a estudar e a trabalhar; que os papéis sociais continuam desiguais no trabalho e em casa, com maior carga nas mulheres. Estes preconceitos têm impactos reais: limitam oportunidades e são reproduzidos, inclusivamente, por sistemas de inteligência artificial.

Os progressos civilizacionais, como é a igualdade de género, e o devido reconhecimento do papel da mulher na ciência – e em todas as áreas da sua vida em paridade com os homens – não se alcançam “naturalmente”. Precisam de ser constantemente reafirmados, reforçados por políticas públicas, praticados no dia-a-dia através de políticas consistentes, defendidas contra os retrocessos a que, lamentavelmente, temos assistido.

Cada um de nós, na sua esfera profissional, na sua família, nos seus círculos de amigos e relações sociais mais alargadas pode ir fazendo a diferença, denunciando a perpetuação dos estereótipos, desmontando preconceitos, apoiando as escolhas de carreiras menos tradicionais para as meninas, apoiando as mulheres nos seus percursos, dando-lhes visibilidade, incentivando-as a liderar, a reivindicar os seus contributos e direitos, a sair da sombra, a ter a sua própria voz.

No INESC TEC, apesar do mérito de tudo o que já alcançamos nesta causa – e de que muito em breve vos daremos conta -, ainda temos caminho para percorrer. Que este Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência seja também um compromisso renovado com uma ciência mais justa, mais diversa e mais inclusiva.

Por Maria da Graça Barbosa, membro do Conselho de Administração

 

[1] Em 1993, a historiadora da ciência Margaret W. Rossiter criou a expressão “efeito Matilda” em homenagem a Matilda Joslyn Gage, uma sufragista que, cerca de um século antes, publicou um ensaio intituladoWoman as Inventor, no qual enumerou várias mulheres responsáveis por descobertas e progressos científicos, cujos nomes tinham sido esquecidos ou usurpados ao longo de vários séculos.
[2] European Commission: Directorate-General for Research and Innovation, She figures 2024 – Gender in research and innovation – Statistics and indicators, Publications Office of the European Union, 2025, https://data.europa.eu/doi/10.2777/6847557. O She Figures Index é uma ferramenta para medir em que medida os Estados-Membros da União Europeia (UE) alcançaram a igualdade de género no Espaço Europeu da Investigação (EEI).
[3] A é o grau/cargo mais alto em que a investigação é normalmente conduzida dentro do sistema institucional ou empresarial.
[4]  Amélia Bastos, João Cruz e Sara Falcão Casaca, estudo levado a cabo pelo Observatório Género, Trabalho e Poder do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), acessível no site da CIG em: https://www.cig.gov.pt/wp-content/uploads/2025/06/DataSheet_23-Junho-2025.pdf
[5] Gender stereotypes across nations relate to the social position of women and men: Evidence from cross-cultural public opinion polls[5] Nater, C., Miller, D. I., Eagly, A. H., & Sczesny, S. (2026). Proceedings of the National Academy of Sciences, 123(2), e2510180122. https://doi.org/10.1073/pnas.2510180122.
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