“Criar impacto, poder estar com pessoas, contribuir para o seu crescimento e crescer com elas”. Ana Simões nunca se desviou disto. Riso contagiante, sempre à procura de “abraçar o próximo desafio”. Regressou recentemente da Suécia, uma experiência “brutal”, que casou na perfeição com uma forma de estar que dá sempre prioridade a quem está à volta.
Quando o café chegou à Suécia tudo mudou. Não tardou muito para os suecos o casarem com pequenos doces e, num instante, tornou-se uma instituição: o fika. Chegou a verbo e traduz o café a meio da manhã para abrandar o dia de trabalho, um momento de pausa, espreguiçar ideias e recarregar baterias. Ana Simões tem um livro sobre esta história. Está bem à vista, no gabinete, logo ao lado do teclado, e é um lembrete da Swedish Way – como está escrito na lombada. No fundo, uma “forma de estar” que a investigadora do INESC TEC já levava na bagagem quando partiu para cinco meses na Suécia.
Isto porque o que Ana Simões gosta mesmo é de “construir redes”, mobilizar, integrar e trabalhar em equipa. Para a investigadora, que passou quase meio ano na Universidade de Chalmers, em Gotemburgo, o riso é sempre fácil, e melhor ainda se for em conjunto: “Sozinhos nunca conseguiremos traçar o caminho que precisámos e sempre achei importante criar uma rede de ajuda e colaboração em todos os sítios por onde passei”. À boleia desta bolsa de mobilidade conseguiu perceber que estas características enlaçam com a objetividade e “aparente” rigidez nórdica. A Suécia, assume, foi um “momento definidor” de uma ligação ao INESC TEC que já leva “oficialmente e a tempo inteiro” quase dez anos. Mais importante: ficou ainda mais certa de que consegue construir um “porto seguro” em qualquer contexto.
Foi sempre assim. A investigação ainda não era hipótese de carreira, o INESC TEC ainda nem sequer existia para Ana quando, pouco depois de ter terminado a licenciatura em Engenharia e Gestão Industrial na Universidade de Aveiro, salta para o outro lado da sala da aula. Intercala mais de 20 anos de docência com atividade de investigação, consultoria, mestrado e doutoramento – em Engenharia e Gestão Industrial, na Universidade do Porto).
“A minha questão principal quando escolhia os passos que devia tomar na minha carreira, era sempre que fosse algo que criasse impacto, não ser algo meramente académico, que depois ficava guardado numa gaveta. Seja no trabalho de consultoria ou a dar aulas – onde sinto que contribuo para o crescimento dos meus alunos e para a sua jornada de crescimento. E depois, mais tarde, como investigadora, queria exatamente o mesmo.” Boa hora para o INESC TEC entrar na pista. O instituto bate à porta duas vezes: primeiro, em 2011, ao abrigo de uma bolsa de doutoramento do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e depois da FCT – era orientada por Américo Azevedo, atual investigador no domínio de engenharia de sistemas empresariais, mas “passava muito pouco tempo por cá”, aponta – e, depois “oficialmente”, em 2017.
Nessa altura, já com o doutoramento, sabe de uma vaga para um projeto praticamente à medida: “Algo que eu gostei logo muito, e que conhecia do INESC TEC, era a multidisciplinaridade. Quando cheguei, o meu primeiro projeto estava ligado à adoção de robôs colaborativos na indústria, e os projetos que eu tenho trabalhado desde que aqui cheguei são projetos com TRLs muito elevados, sempre muito próximos da realidade e necessidade industrial.”
Está há quase dez anos a “crescer em paralelo” com a casa. Por cá, faz todos os dias a ponte para a indústria e avança a “cada vez mais pertinente” tecnologia centrada no humano. Viu de perto o desenho e transformação do Laboratório de Indústria e Inovação (iilab), uma das infraestruturas de investigação do INESC TEC, um espaço que cruza indústria e inovação para dar resposta aos desafios do mercado e da indústria, onde co-lidera a área de formação; e, entre (muitas) outras coisas, é membro da direção da IAMOT (International Association for Management of Technology), e foi co-chair da Conferência com o mesmo nome em 2024, evento-bandeira dentro da área que, trouxe ao Porto investigadores de mais de 30 nacionalidades.
“Desde a minha entrada ‘oficial’, vejo que os resultados que alcançámos têm cada vez mais impacto. E creio que isso também se deve às posições de liderança que assumi. Essa confiança que os coordenadores e os meus colegas depositaram em mim ajuda a que, no final do dia, tenha um sentimento de dever e missão cumpridos. Talvez sinta mais isso porque também evoluí e sinto-me mais madura ao nível de liderança de projetos. Quando lideras, o que fazes tem valor para as pessoas que te rodeiam, porque as faz crescer. E tem valor para o mundo lá fora. Não é o INESC TEC que o consegue sozinho. Consegue através das pessoas. Tu e a tua equipa, e isso é gratificante”, refere.
Como uma luva
E, como diz, “o que faz uma organização são as pessoas.” Ana Simões encontrou um “ambiente exigente, mas, ao mesmo tempo, integrador e acolhedor.”. Equilíbrio difícil de replicar. E talvez por isso tenha sentido necessidade de sair da zona de conforto. É aqui que aparece Chalmers. “Era algo que eu ambicionava, mas que estava sistematicamente a adiar; por motivos profissionais e pessoais. Havia um financiamento da FCT para essa mobilidade e pensei que tinha mesmo de ser desta”.
E como é que uma pessoa “de pessoas”, social, de conversa fácil e “integradora” casa com a swedish way? Pelos vistos, como a luva que teve de usar durante o desafiante inverno nórdico. Os 30 minutos de fika iam sempre correr bem, mas Ana tinha mais planos – foi só dar corda aos sapatos: “fiz um roteiro de sítios que eu gostava de conhecer. Eu gosto muito de caminhadas na natureza e a Suécia é incrível para isso. E depois comecei a envolver pessoas: criei um grupo de caminhada, onde juntei alunos de doutoramento da Chalmers, e outros colegas, e essa iniciativa acabou por ser muito louvada, na minha despedida isso foi mesmo realçado. Para além de ter tido sucesso profissionalmente, fiquei feliz por ter conseguido também criar este espírito de grupo”.
Ainda há pouco tempo, numa formação no INESC TEC, lembra-se de ter recebido um questionário com o propósito de traçar o perfil de quem o preenchia. Já suspeitava do diagnóstico: “pessoa com características de liderança”. Não é que precisasse de prova: soma anos a levar projetos avante, a liderar equipas e a ajudar a “colocar o INESC TEC no mapa”. Dá o exemplo: “Eu sinto que tenho feito esse trabalho, não só na mais recente mobilidade como também durante o meu percurso e nas conferências internacionais que participo e nas que já ajudei a organizar. É também onde sinto que as minhas características podem ser exploradas da melhor forma para levar o INESC TEC mais longe”.
E se se sente sempre pronta para “abraçar novos desafios”, sente também que ainda pode chegar mais longe: “Eu gostava de ter mais posições de liderança. Mas a carreira de investigadora nunca está claramente definida. Sentes que és reconhecida, mas nem sempre sentes que todas as tuas motivações são acomodadas. Vejo-me a crescer ainda mais nessas áreas da liderança”.
Coffee break
Os cinco meses na Suécia foram um “saltinho de pardal” e, num instante, regressou ao Porto, que é casa há 25 anos. Antes, outros “saltinhos”: quando deixou Barcelos para trás na adolescência e se fixou em Aveiro para a universidade, o salto definitivo para o Porto, os “saltinhos” até à Universidade do Minho, em Braga, para dar aulas durante anos a fio. No INESC TEC, multiplica-os: de conferência em conferência – é também membro de uma outra comunidade, a IFIP 5.7 (IFIP W5.7 working group on Advances in Production Management Systems (APMS) – , de evento em evento, de um projeto de investigação para outro.
Vai buscar a energia aos “saltos” no ginásio, com o Crossfit e o Hyrox a preencherem a agenda; e, cá fora, com caminhadas e corridas. “São os espaços que eu crio para desligar mentalmente, uso muito a parte física. É bom para estar em forma, sim, mas faço-o, acima de tudo, para me sentir bem comigo própria. Enquanto estou em atividade, eu não penso em mais nada”.
É o escape mental – que não tirou férias na Suécia: “Gosto de conhecer novos sítios. De ter novas experiências. Foi o que aconteceu nesta mobilidade: foi um match perfeito com aquilo que é a minha personalidade: criar impacto, poder estar com pessoas e contribuir para o seu crescimento e crescer com elas”. Ana faz isso todos os dias no INESC TEC. Na maior conferência, no maior projeto, no coffee break ou num fika lusitano: é a sua “forma de estar”.




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