100 anos de David Attenborough, 70 anos de uma carreira ímpar no que à comunicação de ciência diz respeito. É a mais reconhecida e influente voz no mundo sobre natureza e ambiente. O que hoje são políticas públicas de defesa do ambiente, já Attenborough alerta há muitos anos. Mas, e como citado por um artigo recente do Financial Times a propósito dos 100 anos daquele que é há muito distinguido como “Sir”, Attenborough sempre soube como comunicar com as audiências – não tivesse ele sido um executivo da BBC – e, por isso, criou uma relação de confiança com o seu público sem uma mensagem política explícita, mas com avisos urgentes sobre a proteção da biodiversidade, aquecimento global e outras atividades prejudiciais ao ambiente e à natureza.
Houve outros comunicadores de ciência de reputação global na segunda metade do século XX, como o oceanógrafo francês Jacques Cousteau ou o cosmólogo norte-americano Carl Sagan, mas nenhum deles viveu tempo suficiente para se poder comparar o impacto mundial que Sir David Attenborough teve.
A comunicação de ciência deste biólogo teve impacto nas políticas públicas?
Como um bom comunicador, Attenborough começou por consciencializar a sociedade civil, sensibilizando-a para o extraordinário mundo da natureza e para as crescentes ameaças que enfrenta. No entanto, o impacto ao nível das políticas públicas parece ter demorado demasiado tempo a chegar, porque a perda de biodiversidade e as alterações climáticas continuam a acelerar. O editorial escrito pelo Financial Times é claro: não podemos imputar isso a uma falha pessoal, já que nenhum indivíduo consegue, sozinho, contrariar as forças globais que causam o declínio ecológico. Sem Attenborough, as coisas poderiam ter sido ainda piores. A intervenção pública resulta, também, de um exercício de prioridades coletivas e estratégicas, onde o ambiente apenas mais recentemente ganhou proeminência.
Acabei há uns dias de ler o mais recente romance de Ian McEwan e é quase cómico ter acabado de ler o livro na mesma altura em que David Attenborough comemora os seus 100 anos. No livro, uma das personagens principais, Francis Blundy, é um poeta genial que envergonha os seus convidados que acreditam no aquecimento global. Esta parte da história passa-se em 2014, numa época em que as falácias repetidas pelo poeta já há muito careciam de base científica. Mas o mais irónico é que o livro é uma distopia. Se há partes que se passam em 2014 e até antes, outras há que decorrem em 2119, num mundo alagado depois de um fenómeno chamado “A Grande Inundação”. A beleza do livro de McEwan – tal como aconteceu com Attenborough – é não precisar de escrever, de forma explícita, uma moral da história. Francis Blundy é um poeta fictício negacionista, Sir David Attenborough é um naturalista que avisa há demasiado tempo para as consequências dos atos praticados pelos seres humanos. O mundo atual já dá razão a um deles e (spoiler alert!) não é à ficção.
Quem é o próximo David Attenborough?
Num panorama político e mediático cada vez mais fragmentado, faz sentido procurarmos “O próximo Attenborough”? Ou a estratégia deve passar por dividir para conquistar? A verdade é que em Portugal a comunicação de ciência está na moda e recomenda-se. Há cada vez mais cientistas a comunicar em nome próprio em plataformas digitais, como Instagram, TikTok ou YouTube.
No INESC TEC, acreditamos que a resposta está precisamente nessa pluralidade de vozes. Não numa figura única e insubstituível, mas numa comunidade de investigadores, gestores e comunicadores que, cada um no seu domínio, tornam a ciência mais próxima, mais compreensível e mais relevante para a sociedade. Claro que Attenborough é para mim um marco na comunicação de ciência, quando eu nasci já cá ele andava há 63 anos. Quando comecei a ver os programas dele, aos sábados de manhã na televisão, nem sabia o que era comunicação de ciência. Para mim era uma porta para um mundo natural que eu adorava conhecer mais, mas que ele nos avisava que estava a ser ameaçado. Há pouco mais de uma década deixei de comunicar corporate e passei a comunicar ciência e diria que é quase certo que só aí é que me apercebi que o que ele fazia era o que gostava de fazer. Ele em nome próprio, eu em nome de uma instituição que avança todos os dias na ciência. A voz inconfundível dele tem mais impacto quando surge juntamente com ele a aparecer por detrás de uma árvore numa selva deste mundo ameaçada pelo ser humano. Dificilmente alguma vez terei uma selva, mas tenho um instituto cheio de estórias que merecem ser contadas, cheio de ciência que merece ser explicada, repleto de inovação que merece ser partilhada.
Eu e a Sofia gerimos uma equipa de comunicadores de ciência. Alguns com formação em ciências da comunicação (como nós as duas), outros da área de multimédia e design e até um tradutor nós temos para garantir que tudo que fazemos é bilingue. Tentamos humanizar a ciência. Mostrar o rosto dos nossos cientistas, partilhar as suas conquistas, comunicar à sociedade o avanço que fizeram na ciência e o impacto que isso tem no dia a dia. Nunca seremos um David Attenborough – nem ousamos tentar sê-lo -, mas lutamos, todos os dias, por uma sociedade mais informada, que acredite na ciência e que use a ciência ao serviço de boas políticas públicas.
Trabalhamos de forma coordenada com outras estruturas dentro da nossa instituição, como, por exemplo, o Gabinete de Prospetiva e Políticas Públicas, coordenado por outra Joana, a Almodovar, com quem falamos quase diariamente.
A ciência é comunicada por uma variedade de organizações e perfis do ecossistema de produção de conhecimento, das unidades de Investigação e Desenvolvimento, aos Laboratórios Associados; dos Centros de Tecnologia e Inovação aos Laboratórios Colaborativos. “Nesse ecossistema, o conhecimento é um recurso crucial para políticas públicas baseadas em evidência e capazes de responder ao contexto de mudança cada vez mais acelerada”, explica Joana Almodovar.
“Em concreto, os profissionais nos domínios da investigação, da tecnologia, da comunicação têm um perfil com enorme potencial nas políticas públicas, enquanto knowledge brokers, na transmissão de prioridades a decisores políticos e na sensibilização da sociedade para fatores críticos de ação. Este perfil de disponibilização e de tradução do conhecimento em contributos para políticas públicas é tanto mais relevante quanto as alterações tecnológicas, ambientais, geopolíticas e societais são cada vez mais disruptivas, requerendo a melhor base de informação disponível no planeamento de estratégias e instrumentos”, continua.

Ao celebrar os 100 anos de vida no planeta Terra de Sir David Attenborough, a BBC destacou, entre outras qualidades do seu trabalho, storytelling, joy e devotion. “Na transposição destas qualidades para as políticas públicas, a ênfase numa narrativa dirigida a audiências-alvo, a motivação para contribuir para a utilização do conhecimento em ações coletivas e a dedicação a essa causa são essenciais para produzir ciência com impacto”, conclui Joana Almodovar.
Quem destaca também a importância da comunicação de ciência é o presidente do INESC TEC, não tivesse ele, João Claro, ficado com o pelouro da comunicação no mandato vigente do Conselho de Administração do Instituto.
“No INESC TEC encaramos a comunicação de ciência como parte central da nossa responsabilidade pública. A circulação de informação é hoje em dia intensa, fragmentada e nem sempre rigorosa. Isto exige que contribuamos para que o novo conhecimento científico seja compreensível, contextualizado e útil para os cidadãos, os decisores e as organizações. Nas áreas em que trabalhamos – da inteligência artificial à energia, da saúde ao mar, da robótica à cibersegurança – a ciência e a tecnologia têm impacto direto nas escolhas coletivas e na vida das pessoas. Comunicar bem é, por isso, parte essencial da nossa missão: explicar com clareza, reconhecer a complexidade, escutar a sociedade, reforçar a confiança e contribuir para decisões mais informadas e orientadas para o futuro.”, explica João Claro.

Como é que se inspira através da comunicação?
Fazemo-lo de diferentes formas e temos cientistas que são verdadeiros embaixadores das áreas em que trabalham. Mas não só, olhámos para as políticas públicas (outra vez esse “palavrão” cujo alinhamento com a comunicação é tão necessário) e percebemos onde podemos ter impacto. Uma dessas dimensões é a das STEM. Tentamos inspirar há anos as meninas a procurar áreas de estudo que se traduzam em carreiras cientistas. E tentamos dar visibilidade às nossas mulheres, às que podem inspirar as mais jovens, às que podem ajudar a derrubar o estereotipo do cientista homem, porque pode ser cientista quem quiser, desde que tenha paixão pelo que faz.
“Neste esforço de levar a ciência, a tecnologia e a inovação para lá das nossas portas, desde há alguns anos que a nossa estratégia tem passado por humanizar os nossos esforços de comunicação. O que é que quero dizer com isto? Procuramos que a nossa comunicação tenha uma cara. Neste caso, os rostos das nossas pessoas, precisamente para desconstruir estereótipos e desmistificar eventuais preconceitos relativamente ao que significa ser cientista, mostrando que é uma carreira que pode ser seguida por quem quiser, em especial pelas meninas e jovens. Em particular, temos assinalado, todos os anos, o Dia das Mulheres e das Meninas na Ciência. Fazemos campanhas que visam, não só, promover a discussão em torno deste dia e levar a sociedade a questionar-se sobre o porquê de termos ainda tão poucas mulheres a trabalharem nas áreas STEM, mas também a mostrar, através de exemplos, que é possível seguir estas áreas, se é isso que as nossas jovens querem e almejam. Se é o futuro que pretendem, cá estaremos para, um dia, as ajudarmos a levar o seu trabalho e as suas conquistas ao mundo”, refere Sofia Maciel.
A Ana Pires e a Diana Guimarães são só alguns dos exemplos que nós temos que são fiéis a esta missão. A forma como abraçam não só os desafios que lhes propomos, mas também, e de forma genuína, as ações que desenvolvem proactivamente são um ato de amor à comunicação de ciência. São tantas as atividades em que se envolvem com os mais novos para os trazer para as áreas científicas.
Para estas duas cientistas, e tal como Sir David Attenborough nos ensinou ao longo de um século, “não se protege aquilo que não se ama e não se ama aquilo que não se conhece!”. Ana e Diana consideram que “comunicar ciência é esse ato de amor: transformar o complexo em fascínio”.
“Ao ocuparmos o nosso espaço nas STEM/STEAM, queremos ser o espelho onde as jovens cientistas de amanhã se possam ver hoje, provando que a curiosidade não tem género e que o futuro do planeta depende de todas as vozes que ousarem perguntar ‘porquê?'”, referem as duas investigadoras.
“Salvar o planeta é um desafio de comunicação”
Foi Sir David Attenborough que o disse, quando em 2020 decidiu criar uma conta de Instagram, onde passadas poucas horas tinha mais de 1,3 milhões de seguidores. Fui espreitar, seis anos depois, tem 5,5 milhões e eu sou um deles.
O legado que Attenborough nos deixa é a prova de que comunicar ciência com rigor, paixão e consistência ao longo do tempo pode mudar a forma como o mundo vê um problema. No INESC TEC, esse compromisso está presente no trabalho diário de quem investiga, de quem comunica e de quem transforma conhecimento em recomendações políticas e em soluções. Não precisamos um “próximo” Attenborough. Precisamos de preservar aquilo que ele representa, o que nos ensinou e de – com isso – construir um exército deles.





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