A nova era das telecomunicações globais e o desmantelamento da espinha dorsal que ensinou o mundo a comunicar

Durante quase quarenta anos, um cabo de fibra ótica repousou no fundo do Atlântico, transportando silenciosamente milhões de chamadas, emails e dados entre continentes. Chamava-se TAT-8 e, quando entrou em funcionamento, em 1988, inaugurou uma nova era nas telecomunicações globais. Agora, está a ser removido. Embora já não estivesse operacional há anos, a sua retirada marca simbolicamente o fim de uma era. O que mudou nas últimas décadas? A utilização cada vez mais massiva da inteligência artificial poderá aumentar ainda mais a procura por novas ligações submarinas? A resposta está no fundo do mar.

 

A história de um cabo que mudou a forma de comunicar

Existem mesmo cabos (bem grandes, por sinal!) no fundo do oceano. Os cabos estão ancorados a um ponto da costa e são depois lançados por navios especializados que vão navegando lentamente. Os cabos são depois enterrados no sedimento do fundo do mar, usando máquinas especiais parecidas com arados submarinos, rebocadas pelo navio ou controladas remotamente. Deixando a parte técnica, vamos à história.

O TAT-8 foi um dos primeiros passos daquilo que hoje se tornou a espinha dorsal invisível de uma infraestrutura essencial: uma vasta rede de cabos submarinos que transporta mais de 95% do tráfego internacional de dados. Rui Campos, investigador do INESC TEC e docente na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), relembra que o cabo, “suportado em três pares de fibra ótica e uma capacidade inicial de cerca de 280 Mbit/s permitia cerca de 40 mil chamadas telefónicas simultâneas – um salto muito significativo face aos sistemas anteriores. Mais importante do que a capacidade inicial foi o modelo tecnológico que o TAT-8 ajudou a consolidar. A utilização de fibra ótica, repetidores optoelectrónicos e transmissão digital estabeleceu a base da infraestrutura global que hoje suporta a internet”.

O mundo mudou. A capacidade do TAT-8 ficou saturada muito antes do previsto, e o cabo acabou por ser “aposentado” em 2002 devido a inúmeras falhas. Hoje, o crescimento da computação de alto desempenho, da inteligência artificial e dos centros de dados fez aumentar a procura por novas ligações submarinas, capazes de transportar volumes de dados cada vez maiores (e que os engenheiros de 1988 seriam incapazes de imaginar) entre continentes. Segundo os dados mais recentes da TeleGeography, que monitoriza a infraestrutura global de telecomunicações, existem atualmente cerca de 570 sistemas de cabos submarinos em operação, com mais de 80 em fase de planeamento. Uma corrida silenciosa, mas frenética, no fundo do mar.

“Desde então, a evolução foi extraordinária: os sistemas submarinos modernos operam com capacidades na ordem das centenas de Terabit por segundo, por exemplo, o cabo submarino Marea que liga os Estados Unidos a Espanha com uma capacidade de 200 Tbit/s, muito acima da escala dos primeiros cabos óticos transatlânticos”, acrescenta.

A razão para este crescimento é fácil de compreender. Os serviços cloud funcionam através de centros de dados distribuídos por vários continentes, e os sistemas de inteligência artificial exigem volumes massivos de processamento e troca de dados entre essas infraestruturas. Abra o seu browser, faça uma pesquisa. Peça uma resposta a um sistema de inteligência artificial. Cada um desses gestos desencadeia fluxos de informação que atravessam oceanos, chegam a centros de dados em vários continentes e regressam até si em milissegundos. Isto aumenta a necessidade de ligações internacionais de capacidade (bit/s) muito elevada e latências cada vez mais reduzidas, o que explica o novo ciclo de investimento em cabos submarinos, como refere o especialista em telecomunicações.

 

Uma infraestrutura crítica que deve ser protegida

Os cabos submarinos tornaram-se, sem que a maioria das pessoas perceba, um dos ativos mais estratégicos num contexto de competição tecnológica global. Tornaram-se parte do tabuleiro da geopolítica contemporânea.

Ao contrário de outras infraestruturas críticas, os cabos submarinos estendem-se por milhares de quilómetros em ambiente aberto, muitas vezes sem vigilância contínua. Não existem “fronteiras físicas” no oceano, nem perímetros de segurança e, por isso esta infraestrutura invisível fica exposta a diferentes tipos de risco. Um navio, uma âncora, uma intervenção deliberada. Basta pouco para partir décadas de investimento. Em janeiro de 2025, a NATO lançou a operação Baltic Sentry, na sequência de vários incidentes de cortes de cabos no Mar Báltico, mobilizando drones, aeronaves e meios marítimos para proteger estas infraestruturas críticas. Apesar de não existirem provas conclusivas de sabotagem, a resposta internacional demonstra que a ameaça é levada a sério.

Um corte num cabo submarino não significa apenas uma falha de comunicações e pode também afetar economias inteiras, sistemas financeiros, serviços digitais e até operações críticas de Estados. Segundo Nuno Cruz, investigador e um dos responsáveis pela área da robótica do INESC TEC, “proteger os cabos submarinos tornou-se tão estratégico quanto construí-los e, por isso, “do ponto de vista tecnológico, têm vindo a ser desenvolvidas várias soluções para a inspeção destes cabos, seja através de sistemas visuais ou sonar”.

“Ainda assim, a rede global tem uma característica essencial: a redundância, que a torna altamente resiliente. O tráfego pode, em muitos casos, ser redirecionado por rotas alternativas quando ocorre uma falha localizada”, acrescenta Rui Campos, .

Quando esta infraestrutura passa a ser um negócio tão importante, também os seus investidores mudam. Se, durante décadas, os cabos foram construídos e operados por empresas de telecomunicações, hoje são cada vez mais controlados por grandes empresas tecnológicas. Falamos, por exemplo, da Amazon, da Google e da Meta que não se limitam a usar esta rede, mas estão a construí-la, à medida das suas necessidades, para acompanhar a expansão global dos centros de dados. Isto levanta uma nova questão: quem controla os fluxos de dados?

 

Cabos são muito mais do que comunicação

Estas infraestruturas estão a revelar novas possibilidades que vão muito além da transmissão de dados. A fibra ótica pode funcionar também como uma gigantesca rede de sensores distribuídos ao longo do fundo do mar. “A ITU (União Internacional das Telecomunicações) – à escala internacional – e a ANACOM (Autoridade Nacional de Comunicações) – à escala nacional – têm destacado o potencial dos chamados SMART cables e de técnicas como o Distributed Acoustic Sensing (DAS), que permitem usar a fibra ótica como sensor distribuído para monitorização sísmica, ambiental e oceânica”, lembra Rui Campos. De facto, esta área de atuação não é nova para o INESC TEC, como explica Nuno Cruz:  “Nós sabemos bem o potencial dos SMART Cables e, por isso, é que temos estado envolvidos em diferentes projetos neste âmbito, sendo o mais recente exemplo o K2D, que permitiu a instalação de um SMART cable ao largo de Sesimbra”.

No domínio da geofísica, a tecnologia DAS tem demonstrado potencial na deteção e caracterização de atividade sísmica, incluindo eventos de baixa magnitude e fenómenos associados a falhas tectónicas submarinas. Os investigadores do INESC TEC Susana Silva e Orlando Frazão estão na linha da frente quando o tema é sonorização através de fibra ótica.

“Em paralelo, aplicações em oceanografia e bioacústica têm evidenciado a capacidade do DAS para monitorizar a dinâmica oceânica, as interações entre as ondas e o fundo marinho, bem como a presença de organismos marinhos, contribuindo para uma compreensão mais abrangente dos ecossistemas submarinos”, refere Susana Silva.

Orlando Frazão relembra que, apesar do elevado potencial desta tecnologia, a utilização de DAS apresenta desafios técnicos, nomeadamente ao nível da interpretação de sinais em ambientes ruidosos e da necessidade de processamento intensivo de dados. “Neste contexto, o INESC TEC poderá dar um contributo particularmente relevante através da articulação entre os vários centros e competências científicas, nomeadamente nas áreas da robótica, sensores, inteligência artificial e telecomunicações, refletindo o carácter claramente multidisciplinar desta área disruptiva.”, acrescenta.

Os cabos de fibra ótica têm, hoje, múltiplas facetas e permitem várias abordagens que vão muito além daquilo para que o TAT-8 foi pensado. O INESC TEC tem demonstrado ter as competências necessárias – seja a nível de comunicações, fotónica, robótica e inteligência artificial – para explorar todas estas potencialidades. A inteligência artificial tem, aliás, desempenhado um importante papel ao ajudar a processar os dados do DAS, usando algoritmos para detetar padrões e eventos ou a isolar trechos de maior importância em enormes quantidades de informação.

E na robótica? Como é que esta vasta rede de cabos submarinos pode ajudar a equipa de Nuno Cruz? Já existem projetos em que estas infraestruturas são utilizadas para apoiar missões com robôs submarinos, nomeadamente “através de instalação de docking stations para carregamento de baterias e transferência de dados e integração de emissores acústicos que permitem o posicionamento dos veículos, uma espécie de “GPS submarino”, baseado em sinais sonoros emitidos em pontos específicos ao longo do cabo”.

E há mais. “Neste momento, estamos também a explorar a possibilidade de utilizar os cabos como recetores de dados acústicos. Isto significa tirar partido da sua sensibilidade ao som para permitir a transmissão de dados, de forma acústica, a partir de veículos submarinos ao longo do cabo. Embora seja um conceito mais complexo, poderá, por exemplo, permitir que robôs submarinos que estejam a realizar inspeções consigam transmitir dados em tempo real diretamente para o próprio cabo”, acrescenta o também docente na FEUP.

Portugal no mapa

Portugal tem uma oportunidade rara nesta nova geopolítica digital. A sua posição geográfica, entre a Europa, as Américas e África, coloca-o num ponto de encruzilhada que poucos países têm. “Um exemplo relevante é o cabo submarino EllaLink, lançado em 2021, que criou uma ligação direta entre a Europa e a América Latina, com ponto de amarração em Sines, evitando a rota tradicional via América do Norte para chegar ao Brasil e a América Latina”, sublinha Rui Campos.

O investigador recorda que a ANACOM tem trabalhado para valorizar Portugal como ponto estratégico de amarração de cabos submarinos. “Nos últimos anos, o regulador participou em debates estratégicos sobre o tema, promoveu iniciativas dedicadas aos cabos submarinos, acolheu em Lisboa o simpósio Cabos Submarinos – Pilares do Ecossistema Digital e esteve envolvido em discussões internacionais sobre a resiliência destas infraestruturas. A ANACOM tem também sublinhado publicamente as condições privilegiadas de Portugal em geral, e de Sines em particular, para se afirmarem como um dos grandes hubs digitais da Europa”.

Outro detalhe interessante é que projetos e iniciativas associados ao ecossistema local têm promovido Sines como Atlantic digital gateway: uma localização segura, neutra, resiliente e atrativa para a amarração de novos cabos e para a instalação de centros de dados, reforçando a complementaridade entre conectividade submarina, energia e capacidade computacional. “Também do lado regulatório e administrativo houve passos concretos para simplificar a instalação de cabos submarinos e de infraestruturas associadas em Portugal. Sines poderá inclusive ser apenas a primeira destas localizações, que poderá servir de âncora para alargamento a outras cidades ou regiões como pontos de amarração de cabos submarinos, bem como de instalação de centro de dados e das chamadas giga fábricas de Inteligência Artificial”, acrescenta Rui Campos.

Voltamos ao início. O navio que está agora a recuperar o TAT-8 tem descarregado secções do cabo no porto de Leixões, perto do Porto. A história do primeiro cabo transatlântico de fibra ótica não termina no meio do Atlântico. Termina, em parte, aqui, à nossa porta.

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