Solução proposta pelo INESC TEC, no âmbito da agenda PRODUTECH R3, partiu de um use case identificado pela SONAE e contempla princípios de robótica móvel, robótica de manipulação e perceção.
Em 2023, dos 60,2 milhões de toneladas de mercadoria que chegaram a Portugal, 56,8% entraram por via marítima – seguido da via rodoviária com uns distantes 36,3%. A predominância desta solução logística tem associada, no entanto, uma forte dependência de trabalho humano, que pouco se coaduna com as condições registadas no interior dos contentores: a título de exemplo, temperaturas que no verão podem atingir os 50ºC. Se se considerar que uma parte significativa do trabalho de descontentorização deve ser feito durante a noite, tendo em vista o transporte da mercadoria para armazéns em tempo útil, a necessidade de automatizar o processo de descargas é uma das mais destacadas pelos grandes distribuidores de retalho.
Foi com base nesta carência que investigadores do INESC TEC desenvolveram e apresentaram uma solução de descontentorização autónoma assente em duas premissas: um robô móvel que atua com recurso a um braço robótico. Desta forma, a descontentorização autónoma de caixas dos contentores marítimos passou a ser uma realidade. De acordo com Manuel Silva, investigador do INESC TEC onde coordena a área de robótica industrial, este é um bom exemplo do trabalho desenvolvido pela instituição no domínio da robótica, já que integra princípios de robótica móvel, robótica de manipulação e perceção. “Este é um trabalho onde todos esses princípios estão integrados. Recorremos a um manipulador móvel com um braço manipulador – braço esse que está equipado com um conjunto de sensores, câmaras, para a perceção, e depois temos o software que agrega tudo isto para fazer a remoção das caixas.”
Uma análise rápida permite a Maria Lopes, investigadora do INESC TEC, confirmar o carácter inovador da solução que ajudou a desenvolver ao longo dos últimos meses, no âmbito da agenda PRODUTECH R3 do PRR. “Para já, em Portugal, não há nenhuma. Em relação às restantes, é difícil ver “o funcionamento total, ou seja, acompanhar o processo do início ao fim”. Esta ideia de continuidade e realismo é destacada por Frederico Borges, da SONAE – um dos representantes da indústria que marcaram presença no Laboratório de Indústria e Inovação (iiLab) do INESC TEC para conhecer a solução dedicada ao retalho. “O que conseguiram aqui, e de uma forma espetacular, foi demonstrar em ambiente real o que tínhamos visto na simulação. Já estou habituado a que o INESC TEC faça isto, mas a verdade é que conseguiram demonstrar efetivamente 100% do que eu tinha visto no ecrã do computador.”
A materialização de um use case real – não apenas uma proposta virtual ou de “catálogo” – foi o que mais impressionou Gilberto Lobo, engenheiro da MC SONAE. “Já tinha visto soluções parecidas em feiras internacionais, de grandes players da indústria mundial. O que esta proposta tem de espetacular é que estamos a vê-la no nosso país, na nossa cidade e muito próxima da nossa indústria. Aqui, tenho a certeza que é uma solução que encaixa num use case real.” A inclusão de soluções de robótica móvel na indústria do retalho é, por isso, vista por Gilberto Lobo como uma novidade com pertinência “absolutamente total”. “A indústria do retalho tem uma oportunidade com soluções como esta de transpor uma barreira que é passar de um trabalho que ainda vive muito de manualidades para um trabalho que passa a ser feito e olhado de uma maneira produtiva completamente distinta.”
Para Frederico Borges estamos a falar de um futuro que não demorará muitos anos a concretizar-se – algo a “médio prazo”, nomeadamente pela “grande pressão que existe a nível de Recursos Humanos”. “Uma das soluções é aumentar a automação. Automatizar o que podemos automatizar, para que os nossos colaboradores façam trabalho de valor acrescentado.” A mudança, antecipa, não levará muito a concretizar-se. “Vai ser uma questão de alguns anos até começarmos a ver este tipo de tecnologias, no retalho, ou em ambientes semelhantes, de forma recorrente. E nós queremos ser pioneiros nessas implementações.”
A margem de evolução da solução apresentada pelo INESC TEC existe e está já identificada: “uma próxima versão poderá passar por aumentar a capacidade de carga, mas também por melhorias ao nível da velocidade” – elemento essencial para efeito de produtividade, aponta Maria Lopes. Avaliar o desempenho em contexto real é, para Manuel Silva, outro passo importante, já que só assim poderão ser detetados – e, consequentemente, corrigidos – problemas que surjam da passagem do laboratório para a realidade.
Os investigadores mencionados na notícia têm vínculo ao INESC TEC e ao IPP-ISEP.







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