Mais de 1200 participantes. Dois dias de troca de ideias e propostas para os domínios estratégicos da nova agência para a investigação e inovação, a AI2. Assim foi o Encontro Ciência e Inovação 2026, o primeiro grande evento da recém-criada AI2. O ecossistema nacional de ciência e inovação reuniu-se no centro de congressos de Lisboa, nos dias 15 e 16 de julho, e o INESC TEC não faltou à chamada.
O INESC TEC submeteu três propostas – “Do conhecimento à competitividade: prioridades para 2028-2034”, “Descarbonizar e Reindustrializar: energia, tecnologia e competitividade”, e “Soberania Científica – desafios atuais e caminhos para a ciência em Portugal e na Europa” – com vários parceiros científicos, empresariais e até com entidades financiadoras, e foi convidado a participar noutras. O grande número de propostas apresentadas fez com que as regras mudassem e cada proposta teve apenas direito a três minutos de pitch. O INESC TEC adaptou-se e contribuiu, porque o que está em causa são os contributos para a nova agência e sobre essa matéria há ainda muito a dizer.
O primeiro dia
Os dois amores – a ciência e a inovação – foram evocados logo na cerimónia de abertura pelo presidente da Ai2, João Barros, e reforçados pelo primeiro-ministro português, Luís Montenegro. A manhã do primeiro dia de evento foi marcada por uma série de sessões plenárias dedicadas às prioridades para a ciência e inovação e à aceleração da criação de valor.
À tarde, o INESC TEC marcou presença em duas sessões paralelas.
Na sessão denominada “Parcerias Internacionais para a Excelência” foi José Manuel Mendonça, presidente emérito do INESC TEC, quem representou o Instituto, com o “chapéu” de Coordenador das Parcerias Internacionais FCT.
José Manuel Mendonça, no seu pitch de três minutos, deu contexto sobre as parcerias com as universidades norte-americanas criadas há duas décadas por Mariano Gago e que estão, atualmente, na fase IV. Um dos exemplos que deu de enorme sucesso foi o da Feedzai, nascida através dessas parcerias, e que é hoje uma empresa unicórnio. “Este é apenas um dos muitos exemplos que mostram o impacto que as parcerias internacionais tiveram e continuam a ter no ecossistema nacional”, referiu.
Depois de feito o enquadramento, José Manuel Mendonça passou a palavra aos diretores nacionais das respetivas parcerias – Inês Lynce, por CMU Portugal, Rute André, por UT Austin Portugal (parceria acolhida pelo INESC TEC) e Alexandra Ferreira da Silva, pelo MIT Portugal – para um curto pitch de apresentação.
Antes da abertura de comentários ao público presente em sala, José Manuel Mendonça não quis deixar de referir que no dia 30 de outubro, em Aveiro, vai decorrer a conferência anual conjunta das três parcerias – o Portugal-US Partnerships 2026 Summit – um evento para mostrar o trabalho que as três parcerias têm feito ao longo da fase IV, bem como o impacto resultante das sinergias criadas pelo novo modelo de coordenação.
Mas nem só de parcerias internacionais se falou nesta sessão em que foram discutidas “Parcerias Internacionais para a Excelência”. Aliás, antes de o moderador dar a palavra às parcerias, a sessão de pitch foi dedicada aos projetos TEAMING, com destaque para os recentemente aprovados, já em 2026.
Como José Manuel Mendonça tem também um papel de destaque no TEAMING liderado pelo INESCTEC, o INESCTEC.OCEAN, depois de vários contributos e comentários deixados pela audiência relativamente aos projetos que viram recentemente financiados ao abrigo deste programa europeu, não quis deixar de oferecer a sua visão e experiência face às preocupações expostas – “ao fim 4 de anos, cada um dos TEAMING tem de saber qual será o seu modelo institucional e de governo, e de que forma irá assegurar a sua sustentabilidade futura”.
Uma hora e meia depois, foi a vez de João Claro, presidente e CEO do INESC TEC participar na sessão paralela “Das áreas temáticas aos domínios estratégicos da Ai2”. O pitch feito pelo presidente do INESC TEC intitulou-se “Do conhecimento à competitividade: prioridades para 2028-2034”. Na proposta submetida originalmente a ideia era discutir como Portugal pode reforçar a cadeia de valor que liga a produção de conhecimento científico e tecnológico à competitividade, à coesão territorial e ao bem-estar social, tendo em conta o contexto do próximo ciclo de programação europeu e nacional. Foi, nesse sentido, que o INESC TEC reuniu para o efeito nesta proposta nomes como: Álvaro Santos, presidente da CCDR-N, António Murta, CEO e cofundador da Pathena, Aurora Teixeira, professora catedrática na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Bruno Azevedo, CEO da Addvolt e Paulo Fernandes, Coordenador da Estrutura de Missão “Reconstrução da região Centro do País”.
Alteradas as regras, coube a João Claro fazer o pitch de três minutos. O presidente do INESC TEC explicou que em junho deste ano, os institutos do ecossistema INESC, organizaram, em Bruxelas, o Summer Meeting, onde, entre outras questões, abordaram, quais as fraturas existentes na technology stack europeia. De acordo com João Claro, são várias as conclusões, sendo que, em três minutos, decidiu destacar quatro. “Desde logo, há uma constatação de que os desafios que temos pela frente vão para além da competitividade, eles incluem questões relacionadas com segurança, defesa, dependências estratégicas, crises recorrentes e também com o acelerar de disrupções tecnológicas. Ora tudo isto traz um conjunto de exigências e puxa por respostas do ecossistema de ciência e inovação que não têm sido tao visíveis e que é fundamental para a maneira como vamos olhar para os domínios estratégicos”, explicou. A segunda conclusão tem que ver com coesão e competitividade – “têm de ser pensadas de forma conjunta e a ciência e a inovação são muito importantes para este pensamento. Estamos na altura certa – a nível europeu e nacional – para o fazer”. Em terceiro lugar “é necessário olharmos para as especificidades setoriais e é preciso entender que as naturezas dos instrumentos, por exemplo, têm de ser diferentes dependendo das temáticas”. Por último, João Claro destacou a “translação e a orquestração como capacidades críticas para que tudo o que foi referido anteriormente seja possível e que têm de ser condição na forma como os domínios estratégicos da Ai2 estão a ser pensados”.
O segundo dia do Encontro Ciência e Inovação
Quatro representações no segundo dia do evento. Clara Gouveia, administradora do INESC TEC, apresentou um pitch de três minutos sobre descarbonização e reindustrialização, Nuno Guimarães, investigador do Instituto, mostrou o mais recente LLM português, o AMALIA, Bruno Ferreira, investigador do INESC TEC, interveio na sessão sobre robótica como participante e, sobre soberania digital, apesar de ter sido o proponente principal, o INESC TEC fez-se representar por uma instituição parceira. Mas, comecemos pelo início.
Eram nove da manhã quando a sessão paralela “mobilidade, robótica e construção” deu início. O INESC TEC tinha participado inicialmente na submissão da proposta “Estratégia Integrada para a Robótica Inteligente em Portugal”. Face ao novo formato, foi Pedro Lima, do Instituto de Sistemas e Robótica, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, enquanto proponente principal quem fez o pitch.
Pedro Lima começou a sua intervenção por explicar a importância de juntar IA à robótica. Referiu que a proposta inicial tinha 10 proponentes, sendo o INESC TEC um deles. Deixou claro que a robótica está numa fase de sucesso na captação de financiamento seja europeu, nacional, ou através das parcerias com as Universidade norte-americanas.
A verdade é que, garante, “a robótica é importante em várias dimensões da sociedade: desde logo na coesão social, onde a robótica tem um papel muito importante, seja com robôs para busca e salvamento, em hospitais, na recuperação física, mas também noutra área, a atração de jovens para as STEM”. Mas não só. Sendo uma área multidisciplinar, a robótica tem também impacto noutras dimensões da sociedade, para além da coesão social. É o caso da coesão territorial, onde exemplos como a Zona Económica Exclusiva ou as cidades inteligentes ilustram o alcance da tecnologia.
Pedro Lima frisou ainda a importância do investimento em investigação fundamental, mesmo quando os projetos partem de níveis de maturidade tecnológica (TRL) baixos. Sem essa aposta, disse, “Portugal não teria chegado ao patamar em que hoje se encontra na área da robótica. Muitos dos avanços conquistados resultaram de trabalho motivado pela pura curiosidade científica, como é o caso do futebol robótico”.
Sentado na primeira fila, Bruno Ferreira, o investigador do INESC TEC que representou o Instituto nessa sessão, lembrou que a excelência e a competitividade podem ser alcançadas através de investigação e inovação. “Há vários casos de sucesso nesta área. Um deles é o exercício que a marinha portuguesa organiza todos os anos na zona livre tecnológica de Troia, que reúne sempre milhares de pessoas. É um exercício militar de experimentação robótica que permite testar, em condições reais, o conhecimento desenvolvido nesta área.” O INESC TEC tem participado todos os anos neste exercício, tornando, assim, os contributos do Instituto nesta área diferenciados. “O REPMUS é um exemplo onde se alia conhecimento, infraestrutura e condições naturais singulares”, acrescentou.
Outro exemplo – agora no que diz respeito à ligação ao mercado – tem que ver com a cadeia de valor que vai desde a investigação fundamental essencial, mas que requer também que sejam atingidos TRLs mais altos, que sejam capazes de transferir as tecnologias para as empresas. A questão é que para que isto seja possível é necessário que as instituições façam investimentos avultados, tanto em equipamento como em capacidade de experimentação. Algo que Bruno Ferreira acredita ser um entrave já que uma operação no mar, por exemplo, pode custar várias dezenas de milhares de euros por dia, um valor que nem todas as instituições conseguem suportar.
Às 13h30, a sala que acolhia a sessão paralela que prometia pôr em cima da mesa questões sobre “Energia, descarbonização e circularidade”, começou a fervilhar. Falou-se de hidrogénio, de baterias, de dificuldades, de desafios e de tantas posições institucionais (umas dispares outras complementares).
Clara Gouveia, administradora do INESC TEC, teve a seu cargo um pitch (também de três minutos) focado em “Descarbonizar e reindustrializar: energia, tecnologia e competitividade”, uma proposta que promovia a discussão entre vários atores do sistema: PRODUTECH, CITEVE, REN, Simoldes, pelo que, alterado o modelo de apresentação, o pitch apresentado reflete a visão do INESC TEC”, esclareceu.
A primeira conclusão é clara: “o novo programa-quadro de financiamento europeu alia a transição energética à descarbonização da indústria”. E quando se fala de transição energética, a administradora do INESC TEC destaca a “vantagem estrutural” de Portugal. “Nós investimos na transição energética, com integração significativa de produção e consequentemente preços de energia competitivos, o que traz uma vantagem à economia nacional, o que atrai novos consumidores industriais, como os centros de dados, assim como a possibilidade de desenvolvimento de novas indústrias”, explicou.
Mas, afinal, qual a vantagem que isso traz a nível do sistema científico e tecnológico nacional? Clara Gouveia destaca duas áreas onde Portugal tem capacidade para se distinguir a nível europeu: o armazenamento de energia (baterias e hidrogénio), com projetos europeus e nacionais a cobrir praticamente toda a cadeia de valor, ainda que existam dificuldades na transferência de tecnologia; e a capacidade de gerir e integrar sistemas de rede, combinando não só o vetor elétrico, mas também o térmico (uma dimensão especialmente relevante para a indústria).
Mas se, “temos uma capacidade significativa nesta área de atrair financiamento europeu; temos um conjunto enorme de projetos e de pilotos que lançámos a nível nacional; temos um conjunto muito significativo de agendas mobilizadoras, onde conseguimos agregar um número de empresas, e entidades do sistema científico e tecnológico nacional num ecossistema significativo e funcional. O que é que nos falta?”, questiona.
O que falta, sublinhou, são infraestruturas científicas e tecnológicas que apoiem as empresas a testar essas soluções e ajudem o sistema científico e tecnológico nacional a transformá-las em produtos e a escalá-los. Além disso, acredita que “é preciso também que exista financiamento adequado a este tipo de atividade, que não dependa de processos de avaliação complexos e demorados”.
Ainda nesta linha, destacou a necessidade de revisão urgente dos testbeds, dos Digital Innovation Hubs (DIHs) e das Zonas Livres Tecnológicas, de forma a facilitar o acesso a condições adequadas e sandboxes regulatórias para o teste de novas tecnologias, produtos e serviços.
Na sala ao lado, na sessão “Soberania Científica – Desafios atuais e caminhos para a Ciência em Portugal e na Europa”, Hugo Gamboa, da LIBPHys, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade NOVA de Lisboa, fazia o pitch de uma proposta onde o INESC TEC, através dos investigadores Fernando Cassola e Ademar Aguiar, participou.
A mensagem central foi simples, mas crucial: Portugal não pode limitar-se a ser apenas um utilizador de tecnologias estratégicas. “Devemos reforçar a nossa capacidade de produzir, integrar, auditar, regular e governar tecnologias críticas – desde a inteligência artificial, computação em nuvem, dados e software de código aberto até infraestruturas digitais, gémeos digitais, mundos virtuais e sistemas ciberfísicos”, garante Fernando Cassola, que está convicto que falar de soberania significa autonomia estratégica, resiliência, liberdade de escolha e responsabilidade sobre os dados, infraestruturas e conhecimentos que sustentam a ciência, a economia, os serviços públicos e a democracia.
Para o investigador, este debate exige o envolvimento ativo de toda a comunidade, desde a academia aos laboratórios associados e colaborativos, empresas, reguladores, administração pública e sociedade civil, e defende que só uma visão de financiamento a longo prazo, capaz de ligar a ciência fundamental ao desenvolvimento tecnológico, à demonstração, à transferência de conhecimento e à adoção em setores estratégicos, permitirá dar resposta a este desafio.
A uns metros de distância, o investigador do INESC TEC, Nuno Guimarães tinha nas mãos a missão de explicar e dar a conhecer o novo LLM (large language model) em língua portuguesa, na Demo Session Amália.
No final, os dois amores – a ciência e a inovação – revelaram ser apenas um só. Impossível de escolher, priorizar ou reduzir a um qualquer poema que não lhe faz jus. Hoje, o contexto nacional e internacional mudou e a AI2 tem pela frente vários desafios para orientar transformações profundas em setores estratégicos e o INESC TEC não faltou à chamada para contribuir para este debate.

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