Paula Viana nunca quis um trabalho das “nove às cinco”. Não podia ter corrido melhor: encontrou a engenharia há mais de 40 anos e com isso abriu portas para uma carreira a que juntou o ensino. Professora, investigadora, dirigente de um clube de voleibol, nunca ergueu uma rede entre saberes: “não concebo o ensino superior sem ligação à investigação”. Na sala de aulas, continua a ver “turmas de rapazes” em tudo idênticas às que conheceu na faculdade. Foi lá que começou a ensaiar uma carreira “sem metas definidas”.
Paula Viana vai a meio de contar a história de uma miúda da matemática e da física que encontra o seu caminho na engenharia e acaba a abraçar uma carreira em que ensino e investigação andaram poucos anos desencontrados. Recorda uma catadupa de decisões que a empurraram para 40 anos a “experimentar coisas”. Até que faz a si mesma a pergunta: “Porquê?”. E desata a resposta: “Não foi planeado. Surgia o desafio, eu acolhia-o. Não sou aquele tipo de pessoa que define um fio condutor para o que quer fazer, onde quer chegar”. E, no entanto, chegámos aqui.
Paula começou a experimentar no INESC há mais de 35 anos. “Sem metas definidas”, acaba o curso de Engenharia Eletrotécnica e Computadores, o passaporte para entrar na casa que conhece desde 1989, e encontra um “sítio de oportunidades” a florescer no Porto, na “linha da frente da inovação”, estilo “anárquico”, com cartas brancas de sobra para distribuir por quem queria “fazer diferente”.
Na década de 90, Paula, agora responsável pela área de Telecomunicações e Multimédia, encontrou, no Largo do Mompilher, uma das primeiras casas do Instituto, um espaço frenético, intenso, a fervilhar 24 horas por dia – eram tempos em que o INESC “não fechava”. “Era uma vivência em conjunto. Isto era mesmo quase como uma casa, nós muitas vezes passávamos aqui a noite, a trabalhar juntos, e até fins de semana”, relembra.
“Vou experimentar mais uma coisa”
Estava tudo certo. Paula, que nunca fez das metas a atingir um desígnio de carreira, alinhou facilmente com uma casa despenteada, mas pronta a despontar. “É que o meu percurso nunca foi muito planeado”. Mas se o tivéssemos de resumir, passaríamos sempre pela “turma dos rapazes” no ensino secundário.
“Eu tinha interesses muito abrangentes, desde a Matemática, a Física, até ao Português, gostava de escrever e de ler. Os meus melhores amigos queriam seguir Medicina na universidade. Na altura [do ensino secundário], havia uma parte específica de Saúde, era separada das Tecnologias. Segui-os para a saúde mas estava um bocadinho desconfortável. Não sabia exatamente o que queria”, relata. A engenharia desenha-se como opção válida para quem tinha “interesses muito abrangentes”. No 12.ºano, salta para a “turma dos rapazes”, a dos futuros engenheiros.
Chega à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) numa altura em que o mundo evoluía sem freio – “não tenho a certeza se aquilo que nós estamos a viver agora segue a um ritmo mais acelerado do que o que nós vivíamos na altura”, aponta. Escolhe engenharia eletrotécnica porque via os computadores a invadir todas as casas; mais tarde, na reta final do curso, segue o caminho das telecomunicações porque os telemóveis começavam a caber nos bolsos. Ensaiava uma forma de estar: “Nessa altura, quando via uma oportunidade, pensava sempre: ‘vou atrás dela, vou experimentar mais uma coisa’”. O ensino foi uma dessas experiências.
Nunca foi um objetivo – escapa mesmo das ciências para fugir ao “destino natural” da carreira docente. Depois de três anos como bolseira, candidata-se ao Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). “Foi uma decisão de sair, de abrir mundo. Eu conhecia muito bem a FEUP, conhecia muito bem o INESC. O ISEP e o Politécnico do Porto eram um mundo completamente diferente”.
Estávamos em 1993. Desde então, muito mudou, “mas ainda há muito para mudar”. Coordena a licenciatura em engenharia de telecomunicações e informática e a plateia que diariamente se perfila à sua frente – e com quem se cruza nos corredores dos institutos de investigação onde já esteve – não está muito distante da dos tempos de estudante: “Nesta área da captação das meninas para as ciências e tecnologias ainda há muito, muito trabalho a fazer – continua a haver caminho a seguir e, de qualquer maneira, nós nunca devemos dar as situações por resolvidas”: é um processo contínuo. No final do dia, leva para casa outras coisas: “sinto que tenho sucesso quando vejo ex-alunos com sucesso tremendo e carreiras internacionais brilhantes. Esse retorno do ensino cada vez me dá mais prazer. E eu não concebo o ensino superior sem ligação à investigação e aí também tento dar o meu contributo”.
Afinal, foi lá que tudo começou. Naqueles primeiros anos, surpreendeu-se com os primeiros fóruns online e depois com a os primeiros sites web à boleia do HTML, navegou no primeiro browser – o Mosaic. E explorou o Latex – escreveu mesmo a tese de mestrado nesse sistema de texto simples: “o grupinho de miudagem da altura, os bolseiros, que ia apresentando as descobertas uns aos outros nas noitadas que fazíamos no INESC, foi talvez pioneiro na academia em Portugal a usar esta ferramenta”.
Outro “acaso”: enquanto a internet desenredava mistérios e fazia chegar ao Porto promessas de um mundo descomplicado, Paula atalhava pela área de Multimédia. Tem “sorte”. É que calha de emparelhar com dois ex-professores: Artur Pimenta Alves e Eurico Carrapatoso. E eles “delegavam”: “ou então tinham também, diria eu, muitas coisas a fazer e a pensar”, compõe.
“Deram-me oportunidade de começar muito rapidamente a ir representar o INESC a reuniões internacionais de organizações e em projetos. Diria que tive a sorte de essas duas pessoas com que eu trabalhava na altura me deixarem ir para o meio daqueles cenários”, recorda.
Ala, há um legado para cuidar
No ensino, na investigação e no resto, envolveu-se “com o intuito de ajudar”, de estar presente. Na sala de aula, no laboratório, ou no clube de sempre, o Ala de Nun’Álvares de Gondomar. O voleibol correu sempre em paralelo: sócia há 45 anos, jogadora em todos os escalões, agora membro da direção, é de família: o avô ajudou a fundar o clube gondomarense, o pai vestiu a camisola de jogador e treinador e, agora, são os filhos a fazer o mesmo. Os pavilhões da zona norte são destino recorrente aos fins de semana.
Conseguiu o que parecia pouco provável: juntar investigação à paixão pela Ala: “Nos meus primeiros tempos na Direção, tentei dar o meu contributo com coisas diferentes. Cheguei a ter alunos meus, dos meus cursos, a fazer estágio para introduzir questões tecnológicas ligadas ao desporto e à gestão de informação”. Quando foi preciso, deu “muito tempo extra” à causa: “Na celebração dos 100 anos, criámos uma comissão para planear um ano de festividades e conseguimos bons resultados: uma gala com mais de 500 pessoas, um voto de louvor da Assembleia da República, uma medalha de mérito desportivo do secretário de Estado da Juventude e do Desporto”.
O tempo não estica e nunca houve dias das “nove às cinco” – e Paula também não queria isso. Gosta “deste mundo” de confluências, com pontes a aproximar o que nem sempre esteve próximo.
Todos os dias, na sala de aula, incentiva os mais novos a fazerem o que gostam: “Os alunos têm de ultrapassar os orientadores, para mim isso é claro. Eu acho que o nosso contributo é esse: guiar os mais jovens e permitir que tenham sucesso e que nos ultrapassem”. No INESC TEC, cruza-se regularmente com investigadores a dar os primeiros passos. O que diria se lhe pedissem um conselho? Paula parafrasearia a expressão de uma antiga figura de Estado, que terá resumido ao entrevistador, numa frase, o que pautou as três décadas de dedicação à ciência e ao conhecimento: “Rodeei-me sempre dos melhores, apesar de darem muito trabalho”.
“Ao fim de mais 30 anos neste mundo”, sabe que não haverá percurso sem percalços. Enquanto a bola estiver em jogo, “terão sucesso se estiverem a fazer aquilo que realmente lhes preenche a alma – e não desistirem ao primeiro impacto negativo, porque vão ter muitos ao longo da carreira”. É por isso que, para Paula, o segredo pode mesmo estar no serviço – o ponto de partida: “Não é preciso planear muito. É deixar acontecer”.