O ensaio sobre pragmatismo de Justino escreve-se todos os dias no INESC TEC 

Podia ter sido um sociólogo ou um perito em geopolítica, mas Justino foi sempre de ter os “dois pés na realidade”. As oportunidades passam “quando nos esquecemos de olhar para o lado” e há década e meia não deixou passar o INESC TEC. O futuro, desenhado a regra e esquadro, é cumprido todos os dias por cá, onde é responsável por um laboratório sempre em alta rotação. 

Não havia melhor lugar para Justino Rodrigues. Da sala envidraçada onde trabalha, vê, todos os dias, um vaivém de investigadores e engenheiros a pensar e testar respostas para problemas concretos. Para quem encontrou no pragmatismo um aliado para um percurso em linha reta, é território familiar, reconfortante. Mais de 15 anos de INESC TEC são muitos dias a testemunhar, na linha da frente, que em ciência é tão importante “descobrir o que resulta, como o que não resulta”. Calha de ter percebido cedo o que podia resultar consigo mesmo – e esta é a história de como o pragmatismo abre portas. 

Reservado, de riso fácil, começou a ensaiar o futuro num curso de formação profissional em eletrotecnia, ainda no secundário, a ideia de passar cinco anos a percorrer os átrios e corredores amplos do campus não era uma garantia – nem passaporte para nada. Em Penafiel, onde cresceu, a engenharia e a energia foram a escolha óbvia para quem tinha os “pés assentes na realidade”. “Não tinha a certeza que poderia prosseguir os estudos. Ter aquele curso era uma espécie de ‘dois em um’.”  

Na engenharia e em tudo o resto, “as coisas são o que são”. Justino podia ter dado em sociólogo, em cientista político – tudo áreas com “bons argumentos” –, mas sem garantia de encontrar terreno firme mais à frente que a engenharia garantia: consegue entrar na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e é lá que ouve falar de um “instituto nos fundos” do campus: o INESC TEC. 

Não esquecer de olhar para o lado 

Quando cá chegou, a convite do professor Rui Esteves Araújo, os dias passavam à velocidade do virar das páginas de artigos científicos num open space. Ainda não existia um espaço para investigadores, engenheiros e estudantes testarem e validar soluções inovadoras para a descarbonização da economia. 

Agora, Justino é responsável por ele. Trabalha todos os dias voltado para o antigo Laboratório de Redes Elétricas Inteligentes e Veículos Elétricos do INESC TEC – agora conhecido como x-energy lab, uma arena de inovação e transformação de ideias nas soluções “concretas, com impacto real no dia-a-dia das pessoas”, a prova de que, a seu ver, eleva a engenharia ao último patamar do pragmatismo: a área que permitiu fugir à incerteza. 

“Uma das principais funções de um engenheiro é pegar nas leis da física e saber construir soluções em cima delas. Nós não somos propriamente físicos, nós vamos buscar à solução que os físicos descobrem; o engenheiro tem de ser pragmático, porque é isso que o define, é pegar e fazer o uso. É ter os pés na realidade.” 

E é por isso que não deu em sociólogo ou cientista político. As ciências sociais, a economia e a geopolítica ganharam, ao invés, lugar nas estantes de casa e são companhia diária nas leituras. Agora, com todo o à-vontade, em pleno laboratório que conhece como poucos, destapa alguns planos arrumados e a vontade de seguir com o que o devir trouxesse. “As outras áreas que me interessavam eram bastantes diversas. As temáticas interessam, mas, no final de contas, sentia que não eram áreas em expansão – como era, na altura, a engenharia – e que não encaixariam tanto no meu perfil”. 

“E não estou arrependido”, continua. “Eu nunca fiz planos de longo prazo. Toda a gente tem sonhos, mas acho que é importante não nos fecharmos num sonho em concreto, porque depois esquecemo-nos de olhar para o lado. E a verdade é que às vezes a oportunidade aparece-te mesmo ao lado”, indica. 

“Malta do pé-raso”  

Foi assim que apareceu a casa “nos fundos do campus”. Foi por aqui que recebeu a notícia de ter vencido o prémio REN 2023, na categoria melhor tese de doutoramento, por conseguir testar a incorporação de novas funcionalidades para transformadores inteligentes aplicados em micro-redes e multi-micro-redes de eletricidade. E, por isso, surge a pergunta: um engenheiro não é, também, um criativo? Justino responde: “Sei que não sou a pessoa mais criativa. No fundo, ser engenheiro é construir soluções que funcionam, que resolvem problemas do dia-a-dia das pessoas. Podes ser criativo na maneira como desenvolves outras soluções, mas as leis da física estão sempre lá e limitam o que podes fazer. E se tu inventares demasiado, acabas com uma solução que é complexa, ou cara, ou que não vai funcionar ou ter adoção.” 

O INESC TEC consegue desafiar muitos destes argumentos todos os dias: “é um facto: aqui há sempre algo novo”. E o sentido prático acaba a precisar do engenho: “nós estamos sempre a mudar de projetos, a mudar de desafios. Numa empresa, o cenário pode não ser tão diversificado.  Por aqui, mudou o projeto, mudou o desafio, então temos de começar sempre a exercitar novas ideias.” 

Um exercício que tem mais sucesso se for feito em conjunto. É que a ciência, diz, não “floresce” em câmaras de eco, em ilhas, apartada. Com o crescimento do domínio de energia, a “malta do pé-raso”, como lhe chama, que antes cabia numa sala – “éramos tão poucos que íamos todos almoçar juntos” – multiplicou por dez.  

“Já não há aquela ligação tão direta. Mas é compreensível. Com mais de 200 pessoas, é humanamente impossível ter a mesma relação de proximidade”. Por isso, volta e meia, tira-se o pó à máquina de finos – camuflada algures no laboratório – e “quebra-se o galho”. “As pessoas vinham para aí muito fechadas, ficavam-se no seu cantinho, iam embora. Nós podemos ser robôs, se quisermos. Mas acho que a vida não é só isso. As pessoas têm de se sentir bem aqui.” 

“Ver e andar” depois de um abanão 

Justino sente-se bem por cá. Nunca foi adepto de planos de longo prazo e, entretanto, já passaram 15 anos. Pelo meio, sentiu necessidade de “mudar de ares”. “Às vezes, estamos tão embrenhados na nossa vida, que não sabemos o que é que faz falta, o que é que não faz, e precisas de sair do meio que conheces para perceber”.  

“Soube de um projeto na Cisjordânia, chamava-se HOPE, que reúne voluntários de todo o mundo para partilhar conhecimentos com palestinianos. Na altura de uma das intifadas, chamaram pessoas para dar aulas. A intifada acabou, fechou tudo, e passou a ser algo do género de um ATL, a seguir às aulas. E estavam a chamar pessoas para ensinarem o que soubessem.” 

Esteve na cidade de Nablus, 50 quilómetros a norte de Jerusalém, um “abanão” com réplicas que não oabandonam: “Às vezes, precisamos de nos abstrair de tudo o que tomamos por garantido. E estando no teu meio, não é fácil. Porque as coisas estão sempre à tua beira, estão sempre a exigir atenção”. Identificou-se com o desejo de uma vida melhor e com a vontade de aprender que viu nas salas de aula da cidade palestiniana.  

Três meses depois, volta para o Porto, onde vive. A cidade é, agora, local de partida para muitas voltas a “este Portugal pequenino”. A viagem que parecia mais difícil já foi feita há mais de duas décadas: quando saiu de Penafiel para o Porto, para a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e para o INESC TEC. Agora, vai “vendo e andando”: é que “as coisas aparecem, não é?”. “Tens de saber ver as oportunidades e evitar cerrar e vidrar num sonho demasiado grande, tomas uma linha e vais por aí”. Essa linha trouxe-o à sala envidraçada onde o podemos encontrar todos os dias. É um lugar onde faz sentido estar: pode não ser o ponto de chegada, mas parece, para já, ser um belo ponto de passagem. 

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