Há dedo do INESC TEC numa tecnologia capaz de monitorizar, em tempo real, métricas e movimentos de atletas durante aulas ou treinos desportivos. Solução foi desenvolvida ao abrigo da agenda mobilizadora TEXP@CT, que chegou ao fim este mês.
As solas de borracha derrapam no parquet amarelado ao ritmo dos sprints campo acima, campo abaixo: ataque rápido, temporização, bola de mão para mão. É tudo muito rápido: brecha na defesa, salto, braço para trás e remate para a baliza. Podia ser só mais um treino de andebol – mas não é. Neste jogo, todos os atletas vestem um colete preto com um dispositivo e, fora das quatro linhas, há investigadores do INESC TEC a dividir atenções entre as métricas que vão aparecendo num monitor. O que estão aqui a fazer?
Para responder, é preciso situar a ação. Estamos no pavilhão gimnodesportivo da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP). É final de abril e faltam poucas semanas para o encerramento da Agenda Mobilizadora TEXP@CT. Durante três anos, investigadores e empresas procuraram soluções para a transformação digital da indústria têxtil e apontar o caminho para um futuro com soluções inteligentes e sustentáveis.
Na quadra do pavilhão, decorre a demonstração de uma das componentes do projeto. A cada nota da sinfonia de pequenos guinchos a cada mudança de direção dos atletas, os olhares viram-se para os ecrãs: é a parte visível de uma plataforma completa para apoiar treinos desportivos ou aulas de educação física. Enquanto a bola circula, os sensores no corpo dos atletas recolhem dados.
Funciona assim: todos os jogadores vestiram um colete inteligente equipado com diferentes sensores; as fibras negras escondem uma solução capaz de captar métricas como a frequência cardíaca e a intensidade do movimento. O objetivo? Compilar dados que podem depois ser facilmente analisados por professores ou treinadores para monitorizar o desempenho dos atletas.
Todos os movimentos contam
O INESC TEC viu o jogo na linha da frente. É que, como aponta Lino Oliveira, coube ao Instituto “desenvolver a infraestrutura da solução”. O investigador do INESC TEC explica: “Esta solução, para além do dispositivo que foi desenvolvido e do colete onde ele é inserido, exige depois toda uma infraestrutura de software que vai permitir fazer essa recolha dos dados em tempo real, esse armazenamento e depois todo o acompanhamento em aula ou em treino”.
No ecrã, fora das quatro linhas, as métricas são disponibilizadas de forma intuitiva: gráficos circulares e de barras, ícones, e identificação clara dos atletas em campo. Estes dados são depois analisados em dois estágios. O primeiro, em tempo real, enquanto decorre a atividade: neste momento, a informação é reduzida ao essencial – intensidade de movimento e frequência cardíaca, por exemplo. Depois, essa informação é registada e guardada. A solução corre numa rede local, sem dados alojados em clouds públicas, tudo verte para um servidor local.
Mas a tecnologia desenvolvida pelo consórcio pode ir ainda mais longe – e os dados não deixam de ser úteis quando soa o apito final. “Há uma segunda componente de software que permite avaliar toda a sessão pós-treino, de forma mais detalhada”, assinala Lino Oliveira.
Todos estes dados podem ser valiosos no contexto atual de desenvolvimento das tecnologias de treino e performance desportiva. Miguel Velhote Correia, também investigador do INESC TEC, assinala que os algoritmos desenvolvidos para o projeto podem ser utilizados para “explorar a localização dos atletas no próprio campo”. Ou seja: “Ao saber a localização precisa em que cada atleta está, isso pode permitir que se defina, por exemplo, questões como o tempo de ataque e defesa”.
“Adicionalmente, usando recursos de Inteligência Artificial, conseguimos fazer o reconhecimento automático das atividades, saber se o atleta está a correr, se está a caminhar, se está a saltar, se está a rematar à baliza”, acrescenta. Ao pintar o quadro completo, a ferramenta pode ser usada em várias modalidades – mais de dez (incluindo desportos individuais), salienta o investigador.
O evento de encerramento da Agenda Mobilizadora TEXP@CT aconteceu na Alfândega do Porto e reuniu indústria, sistema científico e parceiros tecnológicos e apresentou as principais conclusões dos sete work packages e dos 26 Produtos, Processos ou Serviços (PPS) que compõem a agenda.
De acordo com a nota de encerramento, o consórcio “conseguiu criar soluções concretas capazes de acelerar a digitalização do setor, reforçar a sustentabilidade, aumentar a eficiência produtiva e aproximar a indústria das exigências do consumidor global.”
O consórcio do work package dedicado ao desenvolvimento de “fatos inteligente para treino desportivo” juntou, para além do INESC TEC, CITEVE, LMA, o Laboratório de Biomecânica da Universidade do Porto – LABIOMEP e PLUX. O INESC TEC participou ainda em mais dois PPS do TEXP@CT.













Notícias, atualidade, curiosidades e muito mais sobre o INESC TEC e a sua comunidade!