“G30” das instituições de investigação e tecnologia europeias reúne em Portugal

Durante dois dias, responsáveis de gabinetes de transferência de tecnologia, representantes da Comissão Europeia, organizações de investigação e parceiros internacionais discutiram boas práticas, desafios e novas oportunidades para transformar conhecimento científico em impacto económico e societal. A 17.ª Reunião Plenária do European TTO Circle, a rede europeia que reúne os principais gabinetes de transferência de tecnologia de instituições de investigação e tecnologia (RTO’s), aconteceu no Porto, sob organização do INESC TEC, a única instituição portuguesa a integrar esta comunidade de excelência.

Entre os temas em destaque esteve a utilização de tecnologias de duplo uso, incluindo possíveis aplicações em contextos de segurança e defesa, uma área que levanta novos desafios éticos, regulatórios e estratégicos às instituições de investigação. Os participantes destacaram que a capacidade de desenvolver e transferir tecnologias com potencial de aplicação civil e de defesa será cada vez mais importante para responder aos desafios económicos, tecnológicos e geopolíticos da Europa.

A economia azul foi também um dos eixos centrais da discussão, com enfoque no papel da ciência, da tecnologia e da inovação em áreas como tecnologias marítimas, energia offshore, robótica, sustentabilidade e autonomia estratégica. Trata-se de um tema particularmente relevante para o INESC TEC que, através do INESCTEC.OCEAN e do futuro Hub Azul de Leixões, tem vindo a afirmar-se como um dos principais agentes nacionais na promoção da inovação ligada ao oceano. Durante a mesa-redonda Blue Economy: Technology Transfer at the Intersection of Sustainability, Industry and Strategic Autonomy, foi destacado que o período entre 2025 e 2026 representa uma fase decisiva para a política europeia para os oceanos, marcada pela evolução de iniciativas dispersas para uma estratégia industrial mais integrada e coordenada.

João Claro, presidente do Conselho de Administração do INESC TEC, reforçou a importância de acolher esta iniciativa no Porto e num local intimamente ligado ao mar, lembrando que o INESC TEC desempenha também um papel relevante na transferência de inovação. “Estamos num momento crítico para a Europa, em que a capacidade de transformar conhecimento em valor económico e societal será determinante para a competitividade do continente. Já existe conhecimento acumulado e exemplos concretos que mostram o que funciona. O desafio passa agora por criar condições para acelerar esses processos e fortalecer o ecossistema europeu de inovação, reforçando também as capacidades institucionais de venture building. Os gabinetes de transferência de tecnologia têm hoje um papel essencial, funcionando como elementos de ligação entre a ciência, a indústria, os investidores e as instituições públicas, ajudando a acelerar a chegada da inovação à sociedade”

O encontro incluiu ainda sessões dedicadas às parcerias globais em tecnologia, à governação de software open source, ao reforço das competências em propriedade intelectual e aos desafios da criação de novas empresas de base tecnológica.

A criação de startups deep tech mereceu uma discussão específica entre os membros da rede, centrada em temas como o papel dos Entrepreneurs-in-Residence (EIR), a preparação para investimento e alternativas ao financiamento de capital de risco, o acesso a talento empreendedor e os desafios de crescimento de empresas tecnológicas em áreas menos atrativas para os investidores tradicionais. A sessão abordou também o papel emergente dos venture builders tecnológicos enquanto mecanismos de criação e aceleração de empresas de base científica, tendo sido destacado que a Europa já dispõe de conhecimento e experiência suficientes para acelerar estes modelos e evitar perder competitividade face a outras regiões do mundo. Em vez de procurar soluções universais, a sessão promoveu a partilha de experiências sobre como diferentes organizações estão a adaptar os seus modelos de incubação e apoio à criação de empresas, reforçando a necessidade de abordagens flexíveis e ajustadas a cada contexto tecnológico e de mercado.

Segundo Daniel Vasconcelos, responsável pelo Gabinete de Transferência de Tecnologia do INESC TEC, a reunião funcionou como um verdadeiro “G30 da transferência de tecnologia”, permitindo discutir boas práticas numa rede europeia altamente especializada. “O TTO Circle é sobre pessoas e sobre as organizações que essas pessoas representam. É a confiança que têm entre si e a partilha da mesma ambição que as une e faz querer encontrar soluções para os desafios na tradução da excelência científica para o impacto societal. Não há dinheiro nem existem prémios, pelo que o que nos une é uma visão em comum e vontade de progredir”, sublinhou.

Para João Claro, a colaboração internacional, nomeadamente com o  Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia, é, hoje, essencial para o sucesso da transferência de tecnologia. “As parcerias globais só são verdadeiramente bem-sucedidas quando ambas as partes conseguem aprender uma com a outra e construir conhecimento em conjunto. Este encontro foi uma oportunidade para refletirmos sobre como podemos, enquanto comunidade, contribuir para o futuro da transferência de tecnologia na Europa e no mundo”, referiu.

A reunião permitiu ainda evidenciar o posicionamento do INESC TEC como exemplo de ligação entre academia, investigação e indústria, demonstrando a importância de criar condições para que a ciência desenvolvida nas instituições chegue efetivamente às empresas, aos mercados e à sociedade.

Mas os desafios da transferência de tecnologia vão muito além das questões regulatórias, legais ou de propriedade intelectual. Ao longo das diferentes sessões ficou clara a necessidade de promover uma mudança cultural nas próprias instituições, reforçando o compromisso com boas práticas, colaboração e mecanismos que facilitem a transformação do conhecimento científico em inovação com impacto. Foi consensual que essa evolução cultural será determinante para o futuro da rede e para a capacidade da Europa valorizar os resultados da sua investigação.

Os participantes sublinharam ainda a importância crescente da cibersegurança na transferência de tecnologias de software, incluindo projetos open source, bem como a necessidade de desenvolver abordagens diferenciadas para a valorização de tecnologia em diferentes setores e contextos.

Criado há 15 anos, o European TTO Circle tem acompanhado alguns dos principais desafios da transferência de tecnologia na Europa, desde a valorização de resultados científicos à criação de spin-offs, passando pela adaptação a novos contextos regulatórios e geopolíticos.

 

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