Energia e telecomunicações em tempos de crise – como preparar Portugal para os próximos fenómenos climáticos extremos?

“As alterações climáticas já são uma realidade em Portugal”, disse-o João Peças Lopes ainda há poucos dias, aquando da sua última aula como docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). O problema é que, mais uma vez, em época de tempestades, não parecemos estar preparados no que às infraestruturas de energia e telecomunicações diz respeito. Se agora foi a Kristin, há uns meses tinham sido, novamente, os incêndios. Todos fenómenos extremos, certo, mas parece seguro afirmar que já não são assim tão raros.

Comecemos pela cronologia dos eventos. Nos dias 27 e 28 de janeiro, parte do território continental português foi assolado pela depressão Kristin, sendo que o pico da tempestade deu-se na madrugada de dia 28. Foram registadas rajadas de vento históricas, com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera a reportar 208km/h em Soure e 178km/h na Base Área de Monte Real, tudo isto antes de começarem, claro, a falhar as infraestruturas críticas.

No momento em que escrevemos esta rubrica não há ainda dados finais sobre vítimas mortais ou feridos provocados por esta tempestade, mas sabe-se que os cortes de energia afetaram mais de meio milhão de pessoas e estima-se que os danos materiais sejam superiores a 4 mil milhões de euros. Também as comunicações deixaram de funcionar – telemóvel, internet e telefone fixo -, afetando, estima-se, mais de 300 mil clientes.

Os distritos de Leiria, Coimbra e Santarém foram os mais fustigados por esta tempestade e houve concelhos inteiros totalmente isolados por várias horas.

Novamente – eventos extremos? Sim. Raros? Já nem tanto. Que lições podemos tirar sobre a resiliência das nossas infraestruturas críticas de eletricidade e telecomunicações e, acima de tudo, como podemos evitar que milhares de pessoas fiquem, no futuro, sem energia e comunicações? É que fevereiro ainda vai no início, a Kristin ficou para trás, já estamos a enfrentar a depressão Leonardo e há algumas projeções meteorológicas que sugerem possíveis alterações no padrão do “jato polar” até meio de fevereiro. E o ano ainda só agora começou.

Primeiro, falhou a eletricidade

61 postes de muito alta tensão da REN derrubados pela depressão Kristin, o que corresponde a 7% da rede de transmissão nacional de eletricidade. Mais de 750 postes de alta e média tensão da E-REDES destruídos.

Ao todo, estima-se que tenham sido afetados mais de 5 mil km de linhas elétricas em todo o país. Para além disso, houve ainda subestações afetadas. A do Zêzere, por exemplo, ficou parcialmente destruída. As da Batalha e de Rio Maior sofreram danos severos. Tudo isto comprometeu os “nós” centrais de distribuição de energia para concelhos inteiros.

Depois, as quedas de árvores. Milhares de árvores caíram sobre linhas de baixa e média tensão, fenómeno ocorrido especialmente em zonas rurais, o que dificultou, em muito, o acesso das equipas de reparação, que se depararam, em muitos casos, até com estradas cortadas. E depois ainda, o efeito em cadeia, porque como os danos ocorreram na rede de transporte, ou seja, muito alta tensão, a reposição nas casas, isto é, a baixa tensão, tornou-se impossível até que os grandes eixos fossem reconstruídos.

O distrito mais afetado? Leiria, que concentrou quase metade dos clientes sem acesso à eletricidade. Alguns deles continuam sem energia.

Depois, falharam as comunicações

“As sucessivas depressões que atingiram Portugal nas últimas semanas, com particular incidência na Região Centro, voltaram a evidenciar a vulnerabilidade das infraestruturas críticas de comunicações face a fenómenos meteorológicos extremos. Distritos como Leiria e Coimbra registaram falhas relevantes nas redes móveis e fixas, num contexto marcado por ventos fortes, precipitação intensa e cortes prolongados de energia elétrica, amplamente reportados pela comunicação social e pelos próprios operadores. À semelhança do que aconteceu durante o “apagão” elétrico de abril de 2025, muitos cidadãos só se aperceberam da real dimensão do problema quando deixaram de conseguir comunicar, ficando temporariamente isolados.”, começa por contar Rui Campos, investigador do INESC TEC.

Ao contrário do que se passou com as infraestruturas de eletricidade, com registo de colapsos e destruição, no caso das comunicações não existe uma confirmação de colapso generalizado de torres de comunicações das redes comerciais durante a depressão Kristin. Ou seja, as “falhas observadas nessas redes não resultaram da destruição generalizada das infraestruturas mais visíveis, mas sim de um efeito combinado de falhas energéticas prolongadas e ruturas em infraestruturas de transporte, em particular ligações de fibra ótica, como foi reconhecido por operadores e pelo regulador ANACOM”, esclarece Rui Campos, que também é docente na FEUP.

“No entanto, no caso da rede de comunicações do Estado, explorada pelo SIRESP, foi confirmado que a tempestade “arrancou” antenas fixas em vários locais, comprometendo localmente a operação do sistema. Esta informação foi tornada pública pelo próprio SIRESP e noticiada pelos media, evidenciando que, em infraestruturas específicas, os danos não se limitaram a falhas energéticas ou de ligação ao núcleo da rede, mas incluíram também danos físicos diretos em componentes rádio”, acrescenta o investigador.

Este fenómeno foi agravado por cortes físicos em fibra ótica, causados, sobretudo e tal como no caso da rede elétrica, por queda de árvores, o que afetou, simultaneamente, os serviços fixos e a ligação das estações bases móveis ao núcleo da rede do operador. “Mesmo quando a infraestrutura rádio se mantinha operacional, a perda de ligação ao núcleo da rede impediu a prestação normal do serviço – um padrão observado em várias zonas do Centro do país”, explica Rui Campos.

O mesmo investigador explica que este tipo de comportamento não é exclusivo de Portugal. “Eventos recentes mostram que tempestades severas expõem fragilidades semelhantes em muitos países, independentemente do grau de maturidade tecnológica das redes. A diferença está sobretudo na preparação e na resposta.”

Chegados a esta explicação, importa clarificar o que se passou nos últimos anos nas telecomunicações em Portugal. Houve uma evolução da rede de comunicações que antes eram cabladas de cobre e que agora são de fibra ótica. Ora, a dependência destas redes à energia elétrica pública em todos os seus pontos de entrega passou a ser total. Como explica o investigador do INESC TEC Filipe Ribeiro, “assim, quando existem fenómenos em que a rede elétrica pública é destruída, o problema principal das comunicações é exatamente o abastecimento de energia. Só quando o abastecimento de energia elétrica está garantido é que a disponibilidade das fibras óticas passa a ser crítica”.

Ora, o que aconteceu com esta depressão já tinha, na verdade, ocorrido também aquando do apagão elétrico da Península Ibérica. Só que agora o momento é de catástrofe natural e há vidas em jogo. Onde deve estar o foco? Segundo o mesmo investigador, nestas situações, “o foco deverá estar nas redes de comunicações sem fios pois, embora a dependência por energia elétrica pública seja igual às redes cabladas, estão muito menos dependentes de instalações físicas e, consequentemente, das redes cabladas. Acresce que têm normalmente associadas terminais com bateria o que torna especialmente útil nestes momentos”.

Vamos a alguns conceitos antes de passarmos às lições aprendidas e, sobretudo, a recomendações futuras? Uma pausa então para explicarmos quais são as infraestruturas críticas atualmente existentes em Portugal, onde, naturalmente, eletricidade e telecomunicações entram

Em 2024, foi precisamente este o tema do Fórum do Outono do INESC TEC, numa antecipação ao que já se previa ser inevitável. À data, foram reportadas 160 infraestruturas críticas existentes em Portugal. Da energia, às telecomunicações, passando pelos transportes ou pelo abastecimento de água, são vários os sistemas, ativos e redes que são essenciais para o funcionamento da sociedade e da sua economia.

Foram várias as entidades chamadas para este debate, desde a ANACOM à E-REDES, diretamente envolvidas hoje na resolução do que se está a passar neste início de 2026 em Portugal. Um dos pontos discutidos neste painel, que, na altura, foi moderado por Clara Gouveia, administradora do INESC TEC, teve logo que ver com envelhecimento de ativos, integração de renováveis, entre outros aspetos que agora não estão relacionados diretamente com os eventos ocorridos (exemplo: contextos geopolíticos ou cibersegurança). No fim, destacou-se a necessidade de um mapeamento global e holístico entre os diversos setores para uma coordenação, a nível nacional, de gestão de situações de crise, uma aposta na formação das equipas que trabalham diretamente com as questões de manutenção, prevenção e segurança, e uma consciencialização da sociedade civil em relação aos alertas de risco. Debateram-se também, claro, os eventos climáticos adversos.

“Começa a ser evidente que os eventos climáticos extremos (tempestades com ventos muito elevados, ondas de calor que levam a incêndios) devem promover uma reflexão com a vista a encontramos soluções que determinem a adaptação de infraestruturas de rede e processos”, explica João Peças Lopes, diretor do INESC TEC.

Mas por onde pode passar a solução? João Peças Lopes é taxativo na sua resposta: “o enterramento das infraestruturas de eletricidade surge logo como uma das opções. Contudo, é preciso ter em conta que esta solução é consideravelmente mais cara que as soluções de rede elétrica aérea, conduzindo a um aumento considerável do preço final da eletricidade”.

Está o país preparado para aumentar mais a sua fatura de eletricidade?

O diretor do INESC TEC fez as contas ao custo de linhas elétricas subterrâneas: “no caso das linhas de alta tensão e de média e alta tensão, é cerca de 5 a 10 vezes mais elevado, comparativamente aos custos de uma linha aérea, isto porque os cabos são muito mais caros devido à necessidade da adoção de um nível de  isolamento acrescido, há um maior volume de obras de construção civil (valas, túneis, travessias de ruas e estradas), é necessário fazer-se investimentos adicionais em equipamentos de compensação de potência reativa, e a manutenção e a reparação é muito mais complexa e demorada, isto para já não falar nos problemas térmicos associados à necessidade de garantir a dissipação de calor do cabo, quando em operação, o que pode condicionar em algumas situações a exploração destas linhas”.

João Peças Lopes lança a pergunta da preparação e responde logo de seguida: “estamos preparados para isso? Em particular para pagar muito mais pela energia elétrica? Acho que não, até porque isso pode afetar a competitividade industrial, nomeadamente nos casos onde a eletricidade tem grande impacto na formação dos preços da produção”.

Há soluções intermédias?

Sim, de acordo com o especialista, é possível promover estratégias de enterramento de linhas de média e alta tensão em áreas de grande densidade industrial e urbana e pode até dar-se o caso de serem revistos os procedimentos de cálculo mecânico das linhas para poderem suportar esforços de vento mais elevados.

Quanto à rede de baixa tensão, João Peças Lopes diz que “deve ser preferencialmente enterrada, com exceção das áreas onde as densidades de consumo forem de facto muito baixas e as distâncias a vencer para alimentar os consumidores forem elevadas. Esta abordagem já é aliás seguida, podendo, contudo, ser reforçada. A força dinâmica do vento considerada incidente nas linhas, cabos de guarda e isoladores, e estruturas de apoios, que é adotada para o cálculo mecânico das linhas pode com efeito ser revista e assim permitir montar apoios capazes de suportar maiores esforços mecânicos. Contudo, tudo isso deve ser muito bem estudado, pois determina sempre custos adicionais”.

Portanto, parece um facto que adaptar infraestruturas existentes para dar resposta a estes desafios será algo que terá sempre custos muito grandes. Porém, de acordo com o especialista, poder-se-ão, de facto, “definir recomendações ajustadas à nova realidade relativamente à construção de novas infraestruturas de rede elétrica”.

“Sobre a arquitetura da rede elétrica de distribuição (radial – modelos mais simples e comum em zonas rurais ou de baixa densidade – ou emalhada – modelo mais utilizado em grandes cidades e centros industriais), que está assim associada à existência de redundâncias para alimentação dos consumos, ela está relacionada com as densidades de consumo a alimentar por essas redes.”, explica o diretor do INESC TEC.

Como funcionam estas redes atualmente? As áreas rurais têm estruturas de rede de distribuição de alta e média tensão radiais e as áreas de maior consumo têm maior grau de emalhamento, embora sejam na maior parte das vezes exploradas em anel aberto, podendo repor-se o serviço nas redes de alta e média tensão rapidamente, após ações de reconfiguração. “Não se perceciona assim necessidade de alterar este paradigma, caso contrários os custos de distribuição de eletricidade seriam muito maiores”, explica o investigador.

Como se atua perante interrupções de serviço na sequência de eventos extremos?

“As empresas distribuidoras podem promover estratégias emergenciais de reforço de grupos geradores de socorro para alimentar áreas de rede afetadas por catástrofes, ligando estas unidades nos quadros gerais de baixa tensão de postos de transformação, ou até em alguns casos alimentar redes de média tensão a partir do barramento de média tensão de uma subestação, desde que não existam consumos muito elevados”, explica João Peças Lopes.

“Qualquer uma destas estratégias de reforço, sejam elas quais forem necessitam que os custos de investimento e operação sejam reconhecidos pela Regulação, para garantir que as empresas são devidamente remuneradas e não se desinteressam de investir e explorar as redes elétricas”, conclui o cientista.

E no que diz respeito às telecomunicações?

É que também aqui se têm assistido a falhas muito relevantes dos sistemas, também elas associadas a eventos extremos. Só em 2025, houve, pelo menos, dois – na época dos incêndios florestais e, antes disso, no apagão da rede elétrica que afetou a Península Ibérica. Agora, em Leiria, mais uma vez as fragilidades nas comunicações fixas, móveis e de emergência voltaram a evidenciar-se. Falhas que tiveram impacto direto nas populações e nos meios de socorro, que ficaram temporariamente privados de instrumentos essenciais de coordenação, como explica Manuel Ricardo, também ele diretor do INESC TEC.

Há aqui um ponto de ligação entre energia e telecomunicações que importa destacar:  a dependência das comunicações da disponibilidade de energia elétrica. “Mesmo em situações onde as redes de telecomunicações continuam tecnicamente operacionais, o serviço pode falhar apenas porque os equipamentos nas casas ou nas torres móveis deixam de ter alimentação elétrica. Isto inclui os pequenos dispositivos que temos em casa para acesso à internet por fibra, como os terminais óticos e os routers, mas também equipamentos em infraestruturas dos operadores.”, explica Luís Pessoa.

“Um ponto que merece atenção é a microprodução local de energia, por exemplo com painéis solares. Apesar da sua crescente adoção, os sistemas mais comuns estão ligados à rede elétrica e deixam de funcionar quando a rede falha, por razões de segurança, em particular para proteção dos técnicos da distribuidora de energia que podem ter de intervir na rede. Ou seja, mesmo com sol e painéis instalados, muitas pessoas descobriram que continuam sem energia durante um apagão. Para que esta produção local seja parte da solução, é necessário garantir que os equipamentos instalados têm capacidade de operar de forma autónoma, mesmo quando não há rede, o que implica outra configuração técnica e, provavelmente, outro tipo de incentivo”, clarifica o investigador do INESC TEC, que é também docente na FEUP.

Importa aqui distinguir dois conceitos essenciais antes de continuarmos a explicação: fiabilidade e resiliência

Manuel Ricardo faz a distinção entre dois conceitos, que considera fundamentais, no que às telecomunicações diz respeito: fiabilidade e resiliência. É que importa, primeiro, sublinhar que “os sistemas de telecomunicações modernos são, em regra, bem protegidos contra falhas isoladas”, até porque “as redes atuais recorrem extensivamente a redundâncias nos seus subsistemas, bem como a mecanismos de gestão de risco”. Só que, apesar disso, os sistemas têm falhado e, como explica o investigador, “a causa principal não reside, na maioria dos casos, em falhas pontuais de equipamento, mas sim em eventos raros e extremos, cuja frequência e intensidade têm vindo a aumentar. Estes eventos afetam simultaneamente grandes áreas geográficas e originam falhas múltiplas e correlacionadas: perda prolongada de energia, destruição de antenas e sites móveis, corte de cabos e redes de transporte e indisponibilidade de servidores e centros de dados”.

Diferença entre fiabilidade e resiliência:

– Fiabilidade: “a capacidade de um sistema continuar a funcionar na presença de falhas, sendo normalmente obtida através de redundâncias. Se a probabilidade de um componente estar operacional num dado momento for de 90%, a duplicação desse componente aumenta a probabilidade de funcionamento para 99%. No entanto, aumentar a fiabilidade tem custos muito elevados, que crescem rapidamente à medida que se procuram níveis de disponibilidade muito altos”, explica o também docente na FEUP.

– Resiliência: “a capacidade de um sistema manter um nível aceitável de serviço e de recuperar rapidamente após uma perturbação. Um sistema muito fiável tende a ser resiliente, mas é possível construir sistemas pouco fiáveis que são resilientes. No caso das telecomunicações, uma rede é resiliente se, perante falhas de energia, de nós ou de ligações, continua a fornecer conectividade mínima e restaura o serviço completo num tempo previsível”, esclarece Manuel Ricardo.

Portanto, em situações de catástrofe de grande dimensão, que serviços de comunicações devem ser preservados como prioritários? Com que nível mínimo de qualidade? Qual o prazo para serem restabelecidos? Devem esses serviços mínimos ser assegurados individualmente por casa operador ou de forma coordenada entre todos os intervenientes?

“Do ponto de vista regulatório, Portugal dispõe já de um enquadramento relevante. O Regulamento n.º 303/2019 da ANACOM exige aos operadores planos de continuidade, auditorias e exercícios regulares. No caso do 5G, por exemplo, a resiliência deixou de ser apenas uma opção técnica e passou a ser uma obrigação operacional e regulatória. Mais recentemente, a transposição da Diretiva Europeia sobre Resiliência de Entidades Críticas, através do Decreto-Lei n.º 22/2025, reforçou este quadro jurídico, exigindo planos de continuidade para serviços essenciais.”, recorda o cientista.

“Experiências de grandes operadores globais de tecnologias de informação e comunicação, como a Google, mostram uma abordagem complementar: assumir que as falhas vão ocorrer, aceitar que a fiabilidade elevada é demasiado cara, e concentrar esforços na redução do impacto no utilizador, na rapidez de recuperação e no controlo explícito do risco.”, continua a explicar.

Vamos voltar à discussão das redes sem fios, em particular, das redes públicas, que já tínhamos visto serem a melhor solução para eventos de catástrofe

Já percebemos que existe uma menor dependência deste tipo de redes, mas não é inexistente. “No caso das redes celulares, o normal é que existam estações base de operador (torres de comunicações) suportadas por uma rede de comunicações de fibra ótica e rede pública de energia elétrica.”, explica Filipe Ribeiro.

Uma pergunta que tem assolado muito a população civil tem que ver com as vantagens de enterrar ou não a fibra ótica. “O enterramento da fibra ótica evita que estas estejam expostas a um conjunto de fenómenos e consequentemente sejam danificadas. No contexto da tempestade Kristin, se as fibras até às estações base estiverem enterradas, dificilmente estas terão sido danificadas, pelo que seria recomendado estarem.  As vantagens são diversas e incluem uma maior resistência a alterações de temperatura e a forças de tração que possam causar ruturas. No contexto de uma tempestade, os cabos de fibra ótica e respetivas caixas de terminação e junção, quanto mais expostas estiverem, maior risco existe de descontinuidade de serviço. Se as fibras estiverem a servir uma estação móvel, é recomendado que esteja enterrada até ao ponto de entrega uma vez que, uma quebra em qualquer ponto dessa ligação levará, do que dela depender, a uma falha de serviço total aos utilizadores dependentes daquela estação base (ex. 5G)”, clarifica Filipe Ribeiro.

Só que, tal como na rede de energia elétrica, há o senão dos custos, embora seja difícil de quantificar, sabendo-se, porém, que a maior componente do custo tem que ver com a construção de condutas e manutenção, ou seja, quando estas já existem nas cidades, o custo de enterramento das fibras óticas é, naturalmente, menor. O investigador explica como é que isto funciona “no caso dos serviços de fibra ótica até casa (FTTH – Fiber to the Home), a distribuição até aos utilizadores não é um para um, isto é, quando há um corte de um conjunto de fibras óticas, o número de clientes afetado é tanto maior quanto mais perto da central de comunicações estiver o corte. Quer isto dizer que a distribuição de sinal em fibra ótica para os utilizadores finais cumpre, tipicamente, uma distribuição em árvore. Aqui a recomendação é que todas as fibras óticas que estejam a dar suporte a pontos de distribuição, estejam enterradas. A ideia é reduzir ao máximo o número de clientes afetados quando uma fibra não enterrada é quebrada. Na prática, isto é altamente custoso quer no momento da instalação quer na sua manutenção.” No caso do FTTH, a única forma de aumentar a estabilidade passa mesmo por aumentar o enterramento de fibras óticas e, possivelmente, criar ligações redundantes para os mesmos clientes, o que, na prática, pode representar custos impraticáveis.

Ações a tomar no curto prazo

De acordo com Manuel Ricardo, Portugal enfrenta agora o desafio de implementar de forma mais coordenada e eficaz os mecanismos de resiliência já existentes. Os tempos de recuperação de serviços mínimos de comunicações continuam, em muitos casos, abaixo das expectativas das populações afetadas. É um problema complexo, mais fácil de descrever do que de resolver, mas cuja urgência é cada vez mais evidente num contexto de eventos extremos recorrentes.

“Não tendo ainda conhecimento de todos os factos, e mantendo o foco nas comunicações sem fios, tal como aconteceu no blackout, o importante é garantir em continuo o abastecimento de energia elétrica, quer por via de geradores quer por via da rede elétrica ou outras soluções. Se isto for mantido, depois o operador tem forma de colocar outros serviços de apoio caso a rede cablada de suporte tenha sido destruída. Por exemplo, o operador pode ativar, quando instaladas, ligações sem fios por via de feixes hertzianos entre torres distanciadas por alguns kms, mas em linha de vista. Os serviços de comunicações seriam de capacidade menor, mas a conectividade seria mantida.”, explica Filipe Ribeiro. “Reafirmo que a preocupação deverá ser manter a rede móvel ativa até porque, como a Kristin provou, mesmo que o FTTH fosse mantido, muitas pessoas tiveram de abandonar a sua casa”, acrescenta.

Outra solução tecnológica com elevado potencial em situações de catástrofe é o acesso à internet via satélites de baixa órbita, em particular através de sistemas como o Starlink, como explica Luís Pessoa. “Esta tecnologia representa um salto significativo: permite estabelecer ligações de dados com débitos e latências comparáveis às redes fixas, sem depender de qualquer infraestrutura terrestre local, bastando uma antena e alimentação elétrica. Em zonas remotas, veículos de emergência ou centros de comando temporários, o Starlink pode garantir comunicações de alta qualidade mesmo quando a rede móvel ou de fibra falha completamente. Não substitui a rede tradicional, mas oferece uma redundância realista e eficaz em contextos onde, até há poucos anos, a única alternativa era o isolamento“, acrescenta o investigador.

Como podemos preparar melhor as infraestruturas?

O texto já vai longo, mas há algo que parece claro – as alterações climáticas chegaram a Portugal e probabilidade de intensificação destes fenómenos é grande.

Pedimos, assim, aos nossos investigadores algumas formas de prepararmos melhor as infraestruturas para que, num futuro, consequências, pelo menos desta dimensão, possam ser evitadas.

Passamos a listar algumas ações elencadas por Filipe Ribeiro:

– Distribuição estratégica de geradores de energia elétrica pelas estações base, de forma a garantir os serviços mínimos do ponto de vista da cobertura, e não tanto da capacidade da rede. Não é necessário instalar geradores em todas as estações base, mas sim num subconjunto cuidadosamente planeado que assegure a cobertura ao longo de todo o território. Nas restantes estações, poderão ser instalados bancos de baterias de maior capacidade, atendendo à inexistência de geração local. Sempre que as estações base de diferentes operadores se encontrem fisicamente próximas, estes geradores poderão inclusivamente ser partilhados entre operadores, reforçando a resiliência global da rede.

– Instalação, sempre que ainda não exista, de multipercursos (anéis) na rede de fibra ótica. Esta é uma prática comum na implementação de redes de suporte a comunicações críticas, permitindo que, em caso de corte de uma ligação de fibra ótica, uma rota alternativa assegure a conectividade da estação base até que o anel seja reposto.

– Criação, ou reforço, de uma rede emalhada sem fios entre as várias torres de comunicações celulares. A ideia passa por, quando a rede de fibra falha, um conjunto de torres em linha de vista possa comunicar entre si até encontrar um caminho (rota de comunicações) para uma torre que disponha de uma ligação ativa à restante rede do operador, seja por fibra ótica ou por outro meio (por exemplo, satélite ou feixe hertziano). Embora esta solução apresente alguma complexidade, não apenas técnica, mas também legal e comercial, trata-se de uma abordagem que pode ser explorada com o objetivo principal de manter a disponibilidade de serviços mínimos

– Caso alguma torre seja destruída, é necessário garantir que existem unidades móveis que possam funcionar como estação base, pois não só podem suprir uma necessidade pontual de cobertura no local afetado, mas também para apoiar a rede do ponto anterior.  o

– Deveria ser protocolado que, em caso de catástrofe, todas as estações base nas zonas afetadas aceitassem na sua rede, clientes de outros operadores, através de roaming nacional. Sem entrar na discussão comercial ou económica, do ponto de vista técnico seria extremamente útil que, pelo menos nestes momentos, as estações base dessas zonas pudessem dar suporte aos clientes de todos os operadores nacionais.

– As cidades deveriam criar pontos estratégicos para a instalação de cabines com disponibilidade de energia elétrica, permitindo o carregamento de telemóveis, a reprodução de emissões de rádio, a difusão de mensagens da proteção civil e o acesso a telefones ligados à rede fixa. Em essência, trata-se de recuperar o papel que as cabines telefónicas desempenhavam nestes cenários. Repare-se que, como referido no início, com a evolução para a rede de fibra ótica e a eliminação quase total das cabines, em situações de catástrofe podemos ter, paradoxalmente, regredido na capacidade de comunicações disponibilizada aos cidadãos.- De volta ao FTTH, como explicado anteriormente, os equipamentos instalados em casa dos clientes dependem de energia elétrica e, por isso, apenas conseguem manter as comunicações ativas em cenários de falha de energia se dispuserem de uma fonte alternativa. Uma opção seria o cliente instalar na sua residência, por exemplo, uma UPS (Uninterruptible Power Supply), de forma a manter ativos os equipamentos de acesso às comunicações. Por outro lado, caso o operador de telecomunicações tivesse conhecimento dessa instalação, poderia promover uma solução em que os pontos de acesso Wi-Fi desse cliente ativassem uma rede de acesso disponível a outros clientes do operador, ainda que de forma limitada. Como contrapartida, o cliente proprietário do equipamento poderia beneficiar de incentivos pela disponibilização desse acesso. Esta solução é particularmente relevante para assegurar que continue a ser possível fazer chamadas de telemóvel a partir da tecnologia Voice over Wi-Fi (VoWiFi).

Recomendações a nível de políticas públicas

Em relação a um possível enterramento da fibra ótica, de acordo com Filipe Ribeiro, “deverá existir um forte incentivo público quer por via das políticas públicas de construção quer por via de incentivos financeiros à construção de condutas. Isto não é novo, mas pode ser acelerado”. O investigador menciona também que “devem ser estudados novos modelos económicos, por via de políticas públicas, que promovam uma maior partilha de infraestruturas entre os operadores de serviços críticos (ex. Telecomunicações, Energia, etc.)”,

Vamos voltar à resiliência? É que, de acordo com Rui Campos, “enterrar infraestruturas de comunicações, nomeadamente fibra ótica, pode aumentar a robustez face ao vento e à queda de árvores, mas não resolve por si só o problema da resiliência”. Como já tinha sido mencionado anteriormente por outros investigadores, enterrar a infraestrutura de comunicações é, tal como na de eletricidade, uma solução mais cara. É também mais lenta de implementar e continua dependente da energia elétrica para alimentar os equipamentos ativos.

De acordo o investigador há já muita experiência internacional que mostra que “os maiores ganhos de resiliência resultam de uma abordagem integrada, combinando autonomia energética reforçada, redundância real de ligação ao núcleo da rede, planeamento operacional e soluções de instalação e resposta rápidas”.

Rui Campos acrescenta ainda que “quando comparado com os exemplos internacionais mencionados, Portugal dispõe atualmente de um enquadramento regulatório mais genérico no que respeita à resiliência das redes de comunicações em cenários de catástrofe. O país encontra-se abrangido pelo quadro europeu de segurança das redes e da informação (atualmente em transposição para a lei nacional), incluindo a recente Diretiva NIS2, que reforça as obrigações de gestão de risco, planeamento de continuidade e reporte de incidentes para operadores considerados essenciais ou importantes, categoria onde se incluem os operadores de comunicações eletrónicas. No entanto, este enquadramento está focado no estabelecimento de princípios de funcionamento, não definindo, por exemplo, autonomias mínimas obrigatórias para estações base ou requisitos técnicos uniformes de redundância. Na prática, isto significa que a resiliência das redes em Portugal resulta hoje sobretudo de decisões de engenharia e investimento dos operadores de telecomunicações, enquadradas por objetivos regulatórios gerais, e não de um modelo nacional explícito de preparação para falhas prolongadas causadas por fenómenos extremos. Existem sites considerados críticos, com maior autonomia energética e prioridade de intervenção, mas essa classificação e os níveis de proteção associados não seguem ainda um modelo público, transparente e harmonizado à escala nacional, como sucede noutros países europeus.”

Já Luís Pessoa propõe um contributo no campo da transparência e da responsabilização pública. “Seria útil que os operadores de telecomunicações tivessem uma classificação clara da resiliência dos seus serviços, à semelhança da etiquetagem energética. Isso poderia incluir informação como a autonomia energética das suas infraestruturas, a existência de caminhos alternativos para manter a rede ligada, e o tempo médio para restabelecer o serviço após uma falha. Este tipo de informação permitiria aos cidadãos e às empresas fazer escolhas mais informadas e daria sinais concretos sobre a importância da robustez das comunicações em cenários extremos”, conclui.

Algumas conclusões que importam destacar

É importante referir que no caso de cenários extremos, não existem soluções de total resiliência, como explica Filipe Ribeiro. “Mesmo o recurso a serviços por via satélite, p.e, Starlink, têm limitações. O essencial é trabalhar numa solução assente nas melhores práticas de engenharia, antes que ocorram catástrofes. Devem ser definidos um conjunto de requisitos funcionais e não funcionais que respondam a vários cenários extremos, sendo a tempestade apenas um deles. Tendo em conta a realidade do país, deve então ser concebido um programa nacional que dê resposta a esses requisitos. Trata-se de um trabalho que exige tempo, unidade e um elevado volume de financiamento; no entanto, como estas situações demonstram, as redes de comunicações são infraestruturas críticas e devem ser tratadas como tal.”

Segundo Rui Campos, “num contexto de alterações climáticas, em que fenómenos extremos tendem a tornar-se mais frequentes e intensos, a questão já não é se estas situações voltarão a ocorrer, mas quando. As falhas registadas no Centro de Portugal mostram que as comunicações não falham por falta de tecnologia, mas quando vários elementos críticos colapsam em simultâneo.

“Os eventos recentes sugerem, assim, que Portugal se encontra num ponto semelhante ao que outros países atravessaram após desastres naturais semelhantes: o reconhecimento de que os mecanismos existentes são adequados para incidentes localizados, mas insuficientes para eventos meteorológicos severos e prolongados, que afetam simultaneamente energia, comunicações e acessos físicos. A experiência internacional mostra que é precisamente nestes momentos que devem surgir evoluções regulatórias mais estruturadas, definindo prioridades, níveis mínimos de resiliência e mecanismos de cooperação reforçada entre operadores, regulador e autoridades de proteção civil. À luz destes exemplos, os eventos recentes no Centro de Portugal sugerem que é fundamental refletir sobre como reforçar a preparação das redes nacionais para fenómenos extremos que, num contexto de alterações climáticas, se tornarão cada vez mais frequentes.”, conclui o investigador.

O mundo faz-se de engenharia, mas também de empatia

Enquanto escrevemos este longo texto que se pretende que seja uma ferramenta de comunicação de ciência útil não só a cientistas, mas também a toda a sociedade, temos uma equipa do INESC TEC, liderada por Luís Seca, administrador do Instituto, a colocar numa carrinha mais de 900 telhas, lonas, comida, entre outros bens, para levar às populações afetadas de Leiria. Este foi um esforço coletivo por parte da comunidade que se juntou, à semelhança de outras situações passadas, para garantir ajuda aos que mais precisam. Porque no INESC TEC fazemos engenharia de ponta a nível nacional e internacional, mas pautamo-nos por uma série de valores, entre eles a responsabilidade social.

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