Sabia que, em muitos subsetores da indústria transformadora, mais de 90% das empresas são micro, pequenas e médias empresas (PME) e que estas podem representar até 70% do consumo total de energia do setor? Apesar dos progressos alcançados na eficiência energética e na adoção de energias renováveis, a descarbonização do setor industrial continua a ser um dos maiores desafios para cumprir a meta europeia da neutralidade carbónica até 2050. O alerta foi deixado por Zenaida Mourão, investigadora do INESC TEC, na terceira sessão do ciclo Conversas com Norte, promovido pela Associação Empresarial de Portugal (AEP).
Mas estaremos preparados para as cumprir? Só as indústrias dos alimentos e bebidas, cerâmica, produção de vidro, metalomecânica e eletromecânica, química e têxtil representam, em conjunto, 52% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) associadas ao uso de energia e cerca de 44% do consumo de energia final da indústria transformadora em Portugal. A investigadora do INESC TEC traça um retrato da realidade portuguesa, lembrando que o prazo para a neutralidade carbónica é muito curto e é necessário acelerar. E, para isso, “mais do que medidas avulsas, faltam estratégias de longo prazo, que sejam definidas, monitorizadas e continuamente atualizadas”.
Segundo Zenaida Mourão, depois dos avanços registados na eficiência energética e na produção de eletricidade renovável para autoconsumo, o foco deve centrar-se agora na descarbonização do calor utilizado nos processos industriais, particularmente em setores como o têxtil, a indústria química e a agroalimentar. Nestes setores, o calor de processo é o uso final com maior peso, podendo representar mais de dois terços do consumo total de energia final.
“O uso do calor continua muito dependente dos combustíveis fósseis. Este é atualmente o maior desafio das empresas nacionais”, destacou.
A investigadora explica que já existem soluções tecnológicas maduras para muitas aplicações de baixa e média temperatura e que o principal obstáculo nem sempre é tecnológico. O investimento em eficiência energética pode traduzir-se em ganhos económicos significativos. “Não fazer nada acaba por ser bastante mais dispendioso”, lembra.
Mas o desafio não passa apenas pela tecnologia. O acesso à informação, a capacitação e o financiamento continuam também a ser apontados como barreiras à implementação de medidas de descarbonização. Durante o debate, foi ainda anunciado que a AEP e o INESC TEC irão lançar, em setembro, um conjunto de roteiros destinados às PME, com o objetivo de apoiar as empresas na definição de estratégias de descarbonização, identificando prioridades de investimento, oportunidades tecnológicas e mecanismos de financiamento disponíveis.
Zenaida Mourão lembrou que “cumprir os objetivos climáticos dependerá da capacidade de as empresas encararem a descarbonização como um processo contínuo”, reforçando simultaneamente a competitividade, a resiliência e a sustentabilidade da atividade económica.
O compromisso do INESC TEC com a descarbonização vai muito além desta iniciativa. Nos últimos anos, o Instituto tem desenvolvido projetos e ferramentas para apoiar empresas e decisores na definição de estratégias de transição energética, desde o desenvolvimento de roteiros para setores industriais à otimização de sistemas energéticos, integração de fontes renováveis, eletrificação de processos industriais e utilização de hidrogénio verde. A participação em iniciativas nacionais e europeias reforça o papel do Instituto como um dos principais atores na investigação aplicada à descarbonização e competitividade da indústria portuguesa.

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