Há uma ferramenta made in INESC TEC capaz de identificar os melhores locais para instalação de data centres de grandes dimensões

Portugal está a afirmar-se como um destino cada vez mais atrativo para a instalação de data centres de grande escala e infraestruturas de Inteligência Artificial (IA), mas há um fator decisivo que condiciona estes investimentos: a capacidade e fiabilidade da rede elétrica. Para responder a este desafio, o INESC TEC desenvolveu e validou uma ferramenta que identifica onde a rede nacional de transporte pode ligar, de forma segura, novos clusters de data centres de grande dimensão, ou seja, entre 500 MW e 1 GW. O objetivo é transformar um problema técnico numa oportunidade, permitindo estimar a capacidade de ligação para consumidores intensivos de energia em cada nó da rede elétrica.

 

O ano de 2025 fechou com a notícia de que a Microsoft ia apostar em força num centro de dados em Portugal. A tecnológica vai instalar mais de 12500 processadores num megacentro de dados no sul do país, num investimento que ronda os 10 mil milhões de dólares. Porquê esta região? A “força” das renováveis – Portugal, Espanha e Grécia estão entre os dez países do mundo onde a energia solar fotovoltaica deve perfazer pelo menos um terço da eletricidade gerada até 2030 – e a localização estratégica são fatores importantes. No entanto, é a capacidade rede elétrica que decide se estes projetos avançam ou ficam pelo caminho. “Com esta ferramenta validada, conseguimos indicar, de forma clara e defensável, onde a rede de transporte suporta centenas de megawatts hoje e onde estará preparada até 2030”, refere João Peças Lopes, diretor e investigador do INESC TEC e professor emérito da Universidade do Porto.

Mas, afinal, em que consiste esta solução e porque é diferente das abordagens tradicionais?  O objetivo é transformar um problema técnico numa oportunidade, permitindo estimar a capacidade de ligação para consumidores intensivos de energia em cada nó da rede elétrica. Este avanço afasta-se de estimativas genéricas ou teóricas de capacidade e analisa – de forma sistemática – toda a rede nacional de transporte, classificando subestações segundo a sua capacidade real de acolhimento de grandes cargas elétricas.

A metodologia combina uma triagem rápida com simulações detalhadas alinhadas com os critérios técnicos do operador da rede de transporte, incluindo cenários de falha. A esta análise junta-se um segundo elemento-chave: um modelo avançado de geração de perfis de consumo de energia elétrica associados a data centres e de infraestruturas computacionais de IA. Isto é essencial porque o impacto deste tipo de infraestruturas na rede não depende apenas da potência máxima instalada, mas de como a energia é consumida hora a hora.

“Encontrar o local certo para um data centre de 500 MW não depende apenas do tamanho de um transformador. Depende do comportamento da rede em horas críticas e até em situações de falha. A nossa metodologia testa essas realidades, traduzindo-as numa lista viável de opções de ligação”, explica Ricardo Bessa, investigador do INESC TEC, onde é responsável pelo domínio de sistemas de energia.

Com estes dados em mão, esta solução vai permitir acelerar decisões de investimento e proteger a segurança do sistema elétrico nacional, numa altura em que muitos projetos enfrentam atrasos ou riscos elevados devido à incerteza sobre o acesso à rede elétrica. Os investidores em infraestruturas digitais e de IA passam, assim, a dispor de informação clara sobre onde construir, com que potência e em que horizonte temporal e os operadores de rede beneficiam de uma visão estratégica sobre onde a nova procura é viável e onde os reforços devem ser priorizados.

A solução beneficia acabe mesmo por trazer boas notícias a todas as partes interessadas. Para além dos investidores, a empresa responsável pelo fornecimento de eletricidade e os operadores de sistemas de distribuição (DSO) ganha também informação sobre onde os reforços da rede devem ser priorizados, enquanto os stakeholders das renováveis conseguem antecipar futuros clusters de procura.

“Esta ferramenta vai permitir analisar rapidamente toda a rede de transporte e depois confirmar, com simulações completas, onde a ligação é realmente segura. Não fazemos suposições, demonstramos. Ao integrar perfis de consumo realistas, os resultados refletem muito melhor o comportamento verdadeiro dos data centre”, sublinha Ignacio Hernando Gil, investigador do INESC TEC e responsável pelo desenvolvimento da ferramenta.

A metodologia do INESC TEC já foi aplicada em projetos reais de consultoria sobre a rede elétrica portuguesa – para identificar a capacidade de ligação de grandes eletrolisadores para hidrogénio verde, por exemplo – e está agora a ser adaptada e aprofundada para responder especificamente às necessidades de data centres de grande escala, em colaboração com vários parceiros industriais.

 

 

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