Chama-se ViField, a nova spin-off portuguesa, e está focada na industrialização de um robô que nasceu nas instalações do INESC TEC, o ORIOOS. Esta plataforma robótica foi concebida para operar em ambientes reais complexos, na agricultura e na indústria. Modular, autónomo e equipado com algoritmos de Inteligência Artificial, o robô – que será agora o primeiro produto da ViField – vai facultar dados com valor acrescentado a produtores agrícolas e responsáveis pela segurança e facilitar o processo de tomada de decisão.
Imagine uma cultura de cerca de 30 hectares onde o produtor necessita, diariamente, de monitorizar toda a área: contabilizar a quantidade de frutos por árvore, detetar doenças numa determinada zona da cultura, verificar anomalias como fugas de água, entre outros. Imaginou? Sabia que, atualmente, quando falamos de produções agrícolas de grande dimensão, só cerca de 10% da extensão de cada cultura é monitorizada culturas são monitorizadas?
E se se tratar de uma empresa de segurança? Onde o vigilante contratado precisa de percorrer grandes distâncias, normalmente sozinho, para fazer longas rondas, deixando zonas desprotegidas e, em muitos casos, colocando a sua própria segurança em risco?
Grandes áreas, seja na agricultura ou na segurança, são, normalmente, sinónimo de uma necessidade crescente de monitorização contínua, num contexto marcado pela escassez de mão-de-obra, custos operacionais elevados e baixa digitalização dos processos.
Na agricultura, a monitorização manual é lenta e cobre apenas uma pequena parte das explorações, levando a decisões baseadas em informação incompleta. Na segurança, a dependência de rondas humanas resulta em cobertura limitada e custos elevados. As soluções atualmente disponíveis, como drones, satélites ou sensores fixos, não conseguem combinar frequência, detalhe e escalabilidade.
Estes são alguns dos principais problemas que o ORIOOS, o primeiro produto da spin-off ViField, quer resolver. A criação deste robô modular e equipado com sensores, capaz de responder às necessidades claras do mercado, remonta a 2022.
“Quando identificámos esta necessidade em 2022, começámos a pensar numa solução. E a solução passou por um robô modelo que consegue fazer esta monitorização de forma completamente autónoma e em toda a extensão da cultura. Em vez de termos apenas 10% da cultura monitorizada de forma manual, temos “as vinhas ou pomares” monitorizadas em toda a sua extensão, 24 horas por dia, sete dias por semana e através de um processo autónomo”, explica André Aguiar, investigador do INESC TEC.
Quatro anos depois, o ORIOOS tornou-se numa plataforma robótica totalmente elétrica, autónoma e modular, leve e de rápida implementação, concebida para operar em ambientes reais complexos como vinhas, pomares e outros ambientes exteriores de elevada extensão. O sistema integra capacidades de navegação autónoma e perceção avançada, permitindo recolher e processar dados diretamente no terreno de forma contínua.
Na agricultura de precisão, o ORIOOS permite, entre outros casos, a estimativa de produção através da contagem de frutos, a deteção precoce de sintomas de doenças, a identificação de anomalias de rega e a monitorização do crescimento das culturas, contribuindo para decisões mais informadas, redução de desperdício e melhor gestão de recursos.
Mas a grande questão é: não poderiam drones cobrir estas áreas e fazer esta monitorização? A verdade é que os drones são uma das tecnologias que compete com o ORIOOS, mas o robô diferencia-se num aspeto principal. O que acontece é que monitorizam as culturas de uma forma muito mais rápida, , mas o tipo de informação que eles adquirem não é tão pormenorizado como o ORIOOS, a autonomia das baterias é restrita e, para além disso, a legislação obrigada a pedidos de autorização para voar com drones.
André Aguiar explica que “com o robô terrestre, é possível fazer uma monitorização de uma forma muito mais próxima à cultura e uma caracterização de cada árvore. Portanto, a diferenciação é que a qualidade de informação que é dada aos a sistemas de apoio à decisão ou diretamente aos produtores, terá mais valor acrescentado em relação ao que os drones oferecem atualmente.”
Isto é vantajoso em várias vertentes. Em primeiro lugar, permite reduzir significativamente os custos de monitorização, aumentar a velocidade de operação face a métodos tradicionais e melhorar a eficiência global das operações. Depois, sendo um método não invasivo, munido de câmaras e sensores, com capacidade de gerar dados de proximidade com elevada qualidade, design simples e modular e elevada robustez em ambientes não estruturados, o ORIOOS vai adequar-se a vários cenários e ambientes exteriores desafiantes e ajudar a antecipar problemas, melhorando a gestão de recursos e prevenindo danos.
Em paralelo, a mesma plataforma pode ser utilizada em contextos de segurança, assegurando patrulhamento autónomo de perímetros, deteção de intrusões e monitorização de infraestruturas agrícolas ou industriais, complementando ou reduzindo a necessidade de vigilância humana contínua.
Aqui, em vez de haver monitorização a nível agronómico, o impacto é na vigilância de espaços, deteção de intrusos, entre outros.
André Aguiar assume a necessidade do setor em reduzir custos e assegura que o ORIOOS não vai substituir as rondas humanas, mas sim complementá-las. “Podemos estar a falar, por exemplo, da redução de um turno. O robô terá sempre uma ligação ao operador humano, tal como já acontece hoje nos centros de operações. Se for emitido um alerta, a empresa de segurança atua da melhor forma.”
O investigador fala também da segurança do próprio vigilante. “Muitas vezes os operadores têm de se desdobrar para conseguir fazer tudo (a vigilância no terreno, o centro de operações, etc.) O ORIOOS surge como um complemento: uma plataforma robótica de baixo custo que melhora a qualidade da segurança e previne ocorrências.” E há outro fator importante: “Se um robô for danificado, pode ser reparado. Se houver uma ocorrência com um operador humano, pode correr muito mal. Quando é um robô a fazer a ronda sozinho, não há risco de perda de uma vida”, conclui.

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