Vender ou envelhecer vinho do Porto? A decisão que pode valer milhões e o INESC TEC tem a resposta

Todos os anos, os produtores de vinho do Porto têm de decidir entre vender o vinho para ganhar dinheiro imediato, ou guardá-lo para envelhecer e, teoricamente, vendê-lo mais caro no futuro. Para ajudar a tomar esta decisão, o INESC TEC desenvolveu um modelo que tenta antecipar o que pode acontecer ao longo do tempo, tendo em consideração fatores como a incerteza e a interação entre diferentes categorias de vinho.

 

O vinho do Porto apresenta uma característica única: melhora com o tempo, aumentando a sua qualidade e valor comercial. À primeira vista, parece que a decisão dos produtores é simples, mas há muitos outros fatores a ter em conta. A decisão de vender vinho mais cedo permite maximizar o lucro imediato, mas pode comprometer a capacidade de responder à procura futura por vinhos mais envelhecidos e valiosos, a longo prazo. Por outro lado, manter grandes quantidades em envelhecimento implica custos operacionais, perdas naturais e oportunidades de venda perdidas. A complexidade é agravada pela variabilidade da matéria-prima disponível e pela incerteza da procura ao longo do tempo.

O estudo Aged products spillover effect and the value of holding inventory under stochastic demand: the case of Port wine, publicado na International Journal of Production Economics, resulta da colaboração internacional dos investigadores do INESC TEC Miguel Lunet, Fábio Neves Moreira e Pedro Amorim com a professora Marjolein Buisman, da Technical University of Munich e analisa a gestão de inventário neste setor, apresentando uma nova abordagem na tomada de decisão.

“Um elemento particularmente relevante que este estudo explora é o efeito de spillover, ou seja, o aumento das vendas de vinho envelhecido tem impacto positivo nas vendas de vinho mais novo da mesma marca. Isto ocorre porque a comercialização de vinho antigo reforça a perceção de marca como premium, estimulando a procura nos segmentos de entrada. Este fenómeno, embora conhecido na área de marketing, nunca tinha sido formalmente integrado em modelos operacionais de decisão”, refere Miguel Lunet.

Os investigadores do INESC TEC desenvolveram modelos que consideram simultaneamente a sequencialidade das decisões (a decisão repete-se todos os anos) e a incerteza do mercado. Entre as abordagens propostas estão um modelo de otimização com visão de longo prazo e uma solução baseada em Deep Reinforcement Learning, “na qual um agente, ao interagir com o mercado de vinho do Porto, aprende políticas otimizadas de alocação e envelhecimento capazes de maximizar a rentabilidade a longo prazo da empresa”, conforme explica o investigador.

No caso de vinhos com 20 anos, por exemplo, as decisões que determinam a sua disponibilidade têm de ser tomadas com duas décadas de antecedência, tornando impossível corrigir rapidamente desvios estratégicos. Assim, a investigação do INESC TEC, ao integrar o efeito spillover e a dinâmica temporal do problema, permite ganhos económicos significativos.

“Uma política de decisão míope, a longo prazo, resulta em lucros muito menores, em comparação com políticas que capturem a sequencialidade e a incerteza inerentes ao problema. Adicionalmente, o estudo demonstra que as decisões presentes, nomeadamente quanto à quantidade de procura a satisfazer e ao inventário a deixar envelhecer, exercem impacto futuro por meio de um efeito de spillover que não pode ser negligenciado. Descurar este efeito acarreta impactos financeiros substanciais, com perdas de lucro acumulado de até 9 milhões de euros ao longo de um horizonte de 25 anos, com base nos dados empíricos analisados”, acrescenta o autor do estudo.

Embora centrado no vinho do Porto, o modelo desenvolvido é aplicável a outros produtos cujo valor aumenta com o tempo, como destilados ou queijos envelhecidos.

“Para resolver problemas com estas características é essencial: primeiro, formular o problema recorrendo a estruturas conceptuais apropriadas, como o Processo de Decisão Markoviano; segundo, desenvolver políticas de tomada de decisão que considerem explicitamente o impacto futuro das ações presentes; terceiro, validar os modelos em ambientes de simulação que replicam adequadamente a incerteza do mundo real”, adianta.

Gerir vinho do Porto não é só uma questão de produção ou marketing. Com as ferramentas certas, é possível tomar decisões mais informadas com impacto real nos resultados das empresas produtoras. Brindamos a esta inovação?

 

 

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