A ciência produz hoje dados em volume e complexidade crescentes, mas o seu valor continua longe de ser plenamente realizado. O verdadeiro desafio reside na forma como esses dados são organizados, documentados, preservados e, sobretudo, reutilizados. É entre a produção e o impacto que a gestão de dados de investigação ganha relevância.
Neste contexto, está em curso uma mudança na forma como a comunidade científica encara os dados. De um subproduto da investigação, passaram a ser reconhecidos como um ativo essencial. Esta transformação está ligada ao movimento da Ciência Aberta e à crescente exigência de que os dados sejam não apenas acessíveis, mas também compreensíveis e reutilizáveis. Os princípios FAIR (Findable, Accessible, Interoperable, Reusable) assumem, assim, um papel central, refletindo orientações europeias para uma ciência mais aberta, transparente e reutilizável.
No INESC TEC, este caminho tem vindo a ser construído de forma estruturada, com crescente projeção. Destaca-se o projeto FAIRway, liderado pelo INESC TEC, em parceria com o CIIMAR e o BIOPOLIS, como um contributo decisivo nesta evolução, ao reforçar as capacidades institucionais na gestão de dados de investigação e promover o alinhamento com o Programa Nacional de Ciência Aberta e Dados Abertos de Investigação. Mais do que consolidar práticas internas, o FAIRway posicionou o INESC TEC como um ator relevante neste domínio, com reconhecimento enquanto centro para a gestão de dados de investigação e participação ativa na rede nacional de data stewards [1]. Este papel traduz-se não apenas na adoção de boas práticas, mas também na capacidade de contribuir para a definição e disseminação das mesmas.
A experiência do projeto confirmou que a gestão de dados não é apenas uma questão tecnológica, mas sobretudo de práticas. A diversidade de abordagens na comunidade científica, muitas vezes assente em iniciativas individuais, evidencia a necessidade de enquadramentos institucionais mais claros, formação contínua e instrumentos de apoio ao longo do ciclo de vida dos dados. O FAIRway contribuiu para a capacitação de investigadores e profissionais de apoio à investigação, através de recursos formativos reutilizáveis, e para a definição de orientações alinhadas com os princípios FAIR, incluindo uma proposta de política institucional de dados abertos. Um dos principais resultados foi o desenvolvimento de um roadmap para a elaboração de Planos de Gestão de Dados (DMPs), que propõe uma abordagem flexível e orientada a diferentes contextos, assente em pontos de decisão ao longo do ciclo de vida dos dados.
É neste enquadramento que o INESC TEC, por iniciativa do seu Serviço de Apoio à Gestão, num trabalho no qual Inês Sousa tem tido um papel particularmente relevante, integra a fase piloto do POLEN Blueprint, uma plataforma promovida pela FCT para apoiar a elaboração e gestão de DMPs. A plataforma procura alinhar automaticamente os planos com os requisitos dos financiadores, suportar processos colaborativos de elaboração e revisão, promover maior consistência entre projetos e práticas institucionais, assim como reforçar a interoperabilidade entre projetos e dados.
Paralelamente, a ligação entre dados abertos e políticas públicas tem vindo a ganhar relevância na Administração Pública. Neste contexto, o INESC TEC dinamizou uma das sessões do ciclo de webinars sobre dados abertos, promovido pela Rede de Serviços de Planeamento e Prospetiva da Administração Pública (REPLAN). Nessa sessão, foi apresentada a experiência do INESC TEC na perspetiva do papel de data steward, em conjunto com a responsável do Gabinete de Prospetiva e Política Pública, Joana Almodovar, contribuindo para o debate sobre a importância dos dados na produção de evidência para suportar a definição e avaliação de políticas públicas. A mensagem central foi clara: o valor dos dados não reside apenas na sua disponibilização, mas na forma como são preparados ao longo do seu ciclo de vida, de acordo com os princípios FAIR, permitindo a sua reutilização em contextos científicos e de política pública.
No essencial, a promoção de dados abertos implica equilibrar a sua partilha e reutilização com a necessidade de assegurar modelos institucionais que garantam a sua qualidade, continuidade e governação, numa lógica de abertura responsável. Trata-se de um trabalho de ligação entre investigadores e infraestruturas, práticas individuais e estratégias institucionais, que se constrói de forma contínua através de ajustamento, aprendizagem e colaboração. Iniciativas como o FAIRway e o POLEN Blueprint mostram que este caminho se faz em rede, com articulação e visão partilhada. É aí que reside o seu maior valor, não apenas na disponibilização dos dados, mas na forma como, coletivamente, lhes damos sentido e promovemos a sua reutilização.
[1] * data steward (gestor de dados de investigação): profissional responsável pela gestão, qualidade e governança dos dados de investigação ao longo do seu ciclo de vida, apoiando investigadores na sua organização, documentação, partilha e reutilização, em conformidade com princípios como os FAIR.
Por João Aguiar Castro, Gestor de Dados de Investigação

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