A história do INESC TEC “já se começa a misturar” na cabeça de Jorge Pereira. Programador, investigador, professor, habituou-se a “desembrulhar” todos desafios que lhe chegam à secretária – é assim há 35 anos. Em boa parte desse tempo, os embrulhos têm “etiqueta” EFACEC: é a presença constante do lado do INESC TEC nesta parceria estratégica que dura há décadas.
Quando Jorge Pereira se fartou de “coisas teóricas”, veio bater à porta do INESC. Em 1991, saído de um curso de computação em que faltavam computadores, marcou no mapa o Largo do Mompilher e apareceu a ver o que dava. Deu em 35 anos a fazer o que vinha à procura: mãos bem dentro da massa, a trabalhar em soluções que não ficam na gaveta.
Para Jorge, a cronologia da estadia no INESC “é difícil de trazer à tona” – “já se começa a misturar tudo”, comenta, sempre de sorriso rasgado. Por isso, antes de se misturar tudo, primeiro os factos: é atualmente investigador sénior no domínio de energia, foi responsável pela área de Sistemas de Gestão e Distribuição e a ponte constante da parceira estratégica entre o INESC TEC e a EFACEC, que dura desde 1996. É ainda professor no agrupamento de Matemática e Sistemas de Informação na Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto.
Há 35 anos, com a licenciatura em Matemática Aplicada e Ciência dos Computadores, vem programar em C no ambiente Unix para a baixa do Porto. É à boleia de uma bolsa de mestrado da JNICT (Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica) – organismo que antecedeu a FCT – que começa a ligação ao INESC. Sempre a programar, começa logo a desenhar software ainda em uso atualmente.
O embrulho
Linha a linha de código, a forma como a investigação no domínio de sistemas de energia da instituição ganhou forma passou muito pela secretária de Jorge. É por ali que em meados de anos 90, tecnologia made in INESC TEC salta disparada para outras geografias. O trampolim chega em 1996, quando entra em cena a EFACEC. “Quando vim para o INESC, comecei a fazer programação e o professor Vladimiro Miranda já estava a antever que o que estava a fazer poderia ser usado em algum projeto, havia margem para transferir a investigação para a indústria”, recorda.
Nasce aqui a tal “conta da EFACEC”, que passou a fazer parte da rotina de Jorge Pereira. Como o professor Manuel Matos, coordenador da investigação no domínio da energia, referiu em tempos, Jorge acaba a “desembrulhar todos os problemas que aparecem nessa área, onde as coisas têm mesmo que funcionar”.
Foram anos de “muito trabalho”, a preparar terreno para o início de uma relação que começou com o desenvolvimento de módulos para um Sistema de Gestão de Redes de Distribuição (DMS). “Era uma coisa nova, porque geralmente havia para as redes de transmissão, mas para a rede de distribuição não havia nada, ou praticamente nada”, recorda o investigador.
O conceito de DMS era mesmo inovador na época. É que tradicionalmente as redes de distribuição estavam pouco instrumentadas, sendo geridas com base na experiência dos operadores e em procedimentos heurísticos simples. Depois dos primeiros módulos receberem guia de marcha, a solução foi instalada no terreno: CERN, Tunísia, Argélia, Roménia, Vietname, Brasil, Moçambique ou Grécia.
“Sou programador – e acho que até programo bem”, atalha, sempre sorridente, para lembrar que é a única pessoa que se mantém da equipa inicial: “havia sempre módulos novos e eu era o responsável pelas pessoas que tinham de fazer esses módulos. Quando saíam da equipa, ficava eu o responsável por corrigir o que precisava de ser corrigido. E sempre tem sido esse o meu trabalho”.
Nem a feijões
Tem-se dado bem com o caderno de encargos. Depois de se cruzar com o INESC, em 1991, os caminhos andaram sempre ligados. Antes da carreira e da vida no Porto, havia a Beira Alta. Natural de Vouzela, despede-se do Centro aos 18 anos, para o curso na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Volta e meia, deixa resvalar uma marca desses tempos: numa ou outra palavra há rasto do sotaque beirão.

“Bem-comportado”, nunca causou “grandes problemas”, mas perder é que não – “nem a feijões”. Raramente falha os eventos sociais do INESC TEC. Sempre pronto a participar, guarda alguma saudade dos torneios de futebol e dos tempos em que eram todos vizinhos na instituição. Se fosse agora, os investigadores da área da energia não cabiam em dez equipas.
Para Jorge, o crescimento foi surpreendente. “Nunca imaginei a dimensão que o INESC TEC podia ter, era quase impossível conseguir prever. Saltámos de sítios pequenos, na baixa do Porto, para a Asprela. Foi sempre a crescer desde essa altura, praticamente”. Mesmo com a pujança e o disparo da atividade, à secretária de Jorge Pereira, o embrulho continua a passar muito pela EFACEC.
“Fico sempre a pensar o que teria sido se tivesse andado a saltar de projeto em projeto. Muito provavelmente, tudo teria sido diferente. Mas sinto, ao mesmo tempo, que com todos estes anos neste projeto trabalhei naquilo que queria quando comecei no INESC. Fiz coisas que são visíveis, com aplicação, que não ficaram perdidas na prateleira”, sustenta.
Por falar em trabalhos que não ficaram na prateleira. “Antes que me esqueça”, atalha Jorge Pereira, “há algo que gostava mesmo de lembrar”. Fala do SACA - Sistema de Arquivo e Controlo de Artigos. Eis “uma coisa que está esquecida, mas que a gente fez”. A ideia partiu do professor Manuel Matos: um sistema para gerir submissões a conferências, artigos científicos e prazos. A solução acabou a ser adotada pelo INESC.
A filosofia do SACA acaba por resumir a jornada de mais de três décadas de Jorge. “O que importa é construir um sistema que funcione. No fundo, dar uma resposta estável e operacional ao que é pedido” - e também algo que as pessoas utilizem.
“Se procuras construir algo que seja à prova de tudo, nunca será conseguido e não irás avançar”. Embrulho a embrulho, Jorge foi dando conta do recado. Ainda tem muitos para desembrulhar para que “as coisas” continuem a funcionar.




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