Quatro anos e meio após o início dos trabalhos, a Agenda Mobilizadora da Fileira das Tecnologias de Produção para a Reindustrialização, PRODUTECH R3, já começou a apresentar os resultados alcançados, numa série de demonstrações em ambientes de aplicação tecnológica real. Desta feita, o cenário foi o Entreposto da MC SONAE, um dos parceiros da agenda, em Vila Nova da Rainha.
Especificamente, o dia serviu para apresentar os resultados de quatro PPSs (Produtos, Processos ou Serviços, métricas físicas e quantitativas utilizadas para monitorizar a execução dos projetos financiados no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência).
No caso do PPS49, destinado à criação de marshalling dinâmico, o desafio visava o desenvolvimento de um software baseado em simulação-otimização capaz de organizar a zona de armazém onde, diariamente, as paletes são organizadas e colocadas nos camiões certos antes de saírem – área conhecida como marshalling. Tradicionalmente, este é um trabalho feito manualmente por um operador. A proposta apresentada, desenvolvida em coautoria com o LTPlabs, baseia-se nos dados do dia para, assim, o software calcular qual a melhor forma de dispor a mercadoria naquela zona, ou seja, em que linha de expedição cada loja deve ficar, para que os trabalhadores percorram o mínimo de distância possível.
Na prática, a implementação da tecnologia pode traduzir-se numa redução de cerca de 6% na distância percorrida pelos operadores, com impacto na eficiência geral de 2 a 4% de ganhos. Para alcançar os resultados, foram usadas duas ferramentas: a primeira, para testar muitos cenários promissores em poucos segundos e, uma segunda, mais detalhada – para simulação 3D com movimentos reais de trabalhadores e paletes – para validar as melhores soluções.
Em parceria com a JPM, no âmbito do PPS29, outra das demonstrações que teve lugar nas instalações da MC SONAE foi a de um Autonomous Mobile Robot (AMR), um robô empilhador autónomo capaz de circular pelo armazém, recolher paletes e transportá-las para a expedição, sem que o operador tenha de intervir. Para completar as tarefas, o robô navega através de sensores laser, desviando-se de obstáculos autonomamente, entra em corredores estreitos e deteta automaticamente as paletes – neste caso, com recurso a inteligência artificial (IA) e câmaras 3D.
A descontentorização também esteve em destaque, no âmbito do PPS31, com a apresentação da solução CARGO: um manipulador autónomo e flexível, dedicado à remoção inteligente de mercadoria de contentores. De acordo com Maria Lopes, o protótipo final industrial exibido nas instalações da SONAE “é composto por uma base móvel omnidirecional comercial para movimentação, um braço robótico industrial para manipulação e um gripper por sucção de alta capacidade”. Já a pipeline de software modular, agnóstica de hardware, foi totalmente desenvolvida pelo INESC TEC e opera com deteção baseada em YOLOv11+RGB-D e filtros adaptativos para segurança.
Entre os impactos que a implementação da solução pode gerar, a investigadora destaca, primeiramente, a melhoria ergonómica, com a substituição de uma tarefa que atualmente é feita totalmente através de esforço humano e, muitas vezes, penosa. “A remoção autónoma de caixas elimina posturas corporais inadequadas (como apanhar caixas rentes ao chão ou no topo das pilhas), reduzindo drasticamente o risco de lesões”, aponta Maria Lopes. É possível ainda apontar uma maior resiliência na gestão de mão de obra, com a mitigação das dificuldades severas no recrutamento de pessoal, em função dos horários previstos para as operações – a maioria decorre durante a noite e com condições térmicas muitas vezes extremas dentro dos contentores.
Finalmente, a solução desenvolvida inteiramente pelo INESC TEC também deverá gerar “ganhos de produtividade e cadência”, graças à “otimização do fluxo logístico com uma cadência demonstrada de aproximadamente 12 segundos por caixa e taxa de sucesso superior a 90%, permitindo “um processo contínuo de alimentação dos transportadores e dos sistemas automáticos de paletização à saída do cais”.
O dia não terminou sem a apresentação dos resultados do PPS42 e PPS43, desenvolvidos pela Infinite Foundry e pelo INESC TEC, que consistiram em gêmeos digitais (digital twins) de armazéns. A tecnologia, que consiste na réplica virtual em tempo real de um espaço físico, é apoiada por câmaras instaladas no topo dos armazéns, capturando o que se passa para que, posteriormente, um software analise e interprete o conteúdo dessas imagens, seja ele paletes, pessoas, empilhadores ou evolução de cada área.
A informação recolhida torna possível a simulação de cenários antes de serem aplicados na realidade – por exemplo, o número de novos operadores necessários caso a procura aumente, a título de exemplo, 55% ou o impacto de adicionar uma nova linha de preparação de paletes. Também com esta tecnologia é possível estimar melhorias na produtividade, com as simulações a sugerirem que a introdução de mais uma zona de filmagem poderá reduzir em cerca de 35% o tempo médio das tarefas dos operadores que trabalhem nessa área.
Para além das vantagens que cada uma das soluções pode aportar individualmente, as três também podem funcionar em conjunto, contribuindo para um funcionamento mais eficiente e organizado das unidades logísticas, ao mesmo tempo que se reduzem os erros e o esforço físico dos operadores e se aumenta a capacidade de resposta a variações de procura.
Enquanto anfitrião e membro da equipa da MC SONAE, José Beça descreveu o dia como “extremamente rico” foi também uma oportunidade de perceber de que forma podem os layouts serem “mais adaptados, mais otimizados, como é que os processos podem ser transformados em benefício da produtividade”. Destaca, entre as tecnologias apresentadas, os gêmeos digitais, que poderão “ajudar na tomada de decisões, graças às simulações em contextos diferentes do real”.
Para Rui Ribeiro, representante do IAPMEI na demonstração, foram um reflexo do “esforço” dos últimos anos de trabalho, com “várias metas que foram sendo atingidas”. “Saímos daqui com uma sensação de descanso relativamente àquilo que se alcançou com este conjunto de investimentos que envolveram recursos relativamente avultados, assim como um grande esforço de todos: quer do lado de quem executou quer do lado das entidades que também acompanharam e induziram estes investimentos”, concluiu.











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