40 países, centenas de cidades europeias – é assim que a ciência é celebrada todos os anos, no final de setembro, naquela que é conhecida como a Noite Europeia dos Investigadores. Este ano não foi diferente e o INESC TEC saiu à rua com diferentes áreas de investigação, em três cidades – Porto, Vila do Conde e Braga – para sensibilizar os mais jovens para a importância da ciência e da inovação e para lhes explicar não só o que fazem os investigadores, mas também para que serve, no dia-a-dia, a tecnologia que desenvolvemos.
No Porto, o INESC TEC associou-se ao i3S – naquela que foi a edição mais visitada de sempre, com mais de mil participantes – quer com uma sessão interativa “Ciência no feminino: visibilidade, representatividade e ação” quer com uma exposição de tecnologias na área da saúde. Em Vila do Conde o Instituto apresentou um novo projeto no Centro Ciência Viva de Vila do Conde. Já em Braga, as áreas de computação, cibersegurança e bases de dados do INESC TEC deslocaram-se até ao Fórum Braga.
A curiosidade dos mais jovens perante a primeira cientista astronauta portuguesa: “há vida em Marte?”
“Ciência no feminino: visibilidade, representatividade e ação”, foi este o nome escolhido para duas sessões interativas que tinham como objetivo dar a conhecer alguns números mundiais, europeus e nacionais sobre a representatividade das mulheres na ciência e que culminou com a história da primeira cientista astronauta portuguesa, Ana Pires, investigadora do INESC TEC.

Ana Pires partilhou um percurso “menos óbvio para alguém cuja formação principal é em geociências”, mas “a vontade de aprender mais, de explorar novas áreas” nunca lhe foi vedada por ninguém. Um percurso que inspira, mas que importa dizer que acarreta sacrifícios – “estar um mês ausente para ir para o Utah, no Estados Unidos da América, traz sacrifícios pessoais. Ter de ir uma semana antes, estar duas semanas isolada, ter de ficar uma semana depois. Mas quando olho para trás penso que tive e tenho a oportunidade de fazer muitas coisas que muitas pessoas não têm”.
Ana inspira uma audiência não só de meninas e meninos mais pequenos, mas que se faz acompanhar de outros familiares. E inspira mesmo as mais pequenas que já sabem exatamente as áreas que querem seguir – “eu quero ir para medicina”, dizia uma menina de dez anos, enquanto outra de nove dizia “eu quero ser astrobióloga e estudar microrganismos na lua ou em Marte”. Inspira porque lhes explica que não têm de ser engenheiras para entrar, por exemplo, na NASA ou na Agência Espacial Europeia – “estão sempre a pedir médicos, por exemplo, senão quem trata do bem-estar dos astronautas?”.

Foram várias as perguntas que lhe fizeram “acredita que há vida em Marte?” – não só pequenos, também adultos. A curiosidade e o interesse pela história da investigadora do INESC TEC fizeram com que as sessões durassem todas mais do que o previsto. No fim, pedem-lhe fotografias, as meninas, as famílias e Ana Pires, no seu fato de voo. Duas sessões organizadas, duas salas cheias – objetivo conseguido. Sempre que as sessões terminavam, relembravam-se os participantes que não é só de robótica que se faz o INESC TEC e que no piso inferior uma série de investigadores no domínio de bioengenharia tinham uma banca preparada para lhes fazerem testes de retina.
“Será que terei problemas de visão no futuro”
Vários investigadores do INESC TEC no domínio da bioengenharia estavam no piso 0 do i3S a expor tecnologias de imagem biomédica e a fazer demonstrações junto do público que por ali ia passando. Pequenos e graúdos tiveram a oportunidade de explorar um equipamento de retinografia, usado para obter imagens do fundo de olho, e ainda uma análise tomográfica de corpo inteiro que permitia aos participantes interagir com a ferramenta.

João Pedrosa, Tânia Melo, Ana Filipa Sousa, Daniel Proaño-Guevara, e Nora Kovacs foram os investigadores do INESC TEC que acompanharam esta exposição. Nas palavras de João Pedrosa, “há algo de especial em falar com o público, principalmente se houver crianças envolvidas, e no i3S tivemos uma oportunidade para pensar em como podemos mostrar melhor a nossa investigação e quem somos ao público. Coisas realmente importantes acontecem quando a ciência sai do laboratório!”.

Vila do Conde: Garantir um futuro sustentável para todos
No Centro Ciência Viva de Vila do Conde, o INESC TEC deu a conhecer o projeto ORION, disponibilizando ao público uma apresentação interativa dos Digital Twins de alguns dos demonstradores, complementando com um guia exploratório e um conjunto de perguntas a que os participantes respondiam por interação com o protótipo.
Em representação deste projeto estiveram Filipe Tadeu Oliveira, Tatiana Pereira, Celestino Silva e José Pedro Sousa, investigadores do INESC TEC na área de energia. Para Celestino, “a participação na NEI 2026 foi uma boa oportunidade para mostrar o nosso trabalho, trocar ideias com outras pessoas e perceber o interesse que estes temas despertam junto de diferentes públicos”. Já no caso de Tatiana, “embora o púbico fosse maioritariamente jovem, com idades de 3 a 13 anos, o evento evidenciou que é possível comunicar descobertas, tecnologias existentes de forma clara, acessível e informativa, sem comprometer o rigor”.

O projeto ORION, financiado pela União Europeia, apoia a transição para um sistema energético sustentável, resiliente e ciberseguro, alinhado com as metas climáticas europeias, com o propósito de alcançar um futuro neutro em carbono até 2050.
Braga: Estimular o interesse por carreiras científicas
O INESC TEC também marcou presença neste evento, no Forum Braga, com um conjunto de atividades interativas que levaram a investigação e a tecnologia ao grande público. Por meio de jogos e desafios, crianças, jovens e adultos foram convidados a descobrir como se faz ciência e o impacto que tem no seu dia a dia.
Na área da cibersegurança, os projetos Rescueware e INOCULUM sensibilizaram para os perigos dos ataques de ransomware e para as pequenas decisões diárias que podem ser utilizadas para prevenir os ataques e/ou os danos causados pelos mesmos. Os mais novos experimentaram o jogo “Guardião dos Ficheiros”, um jogo de cartas no qual era necessário proteger os seus ficheiros do monstro Ransom, aprendendo a parar, pensar e pedir ajuda antes de agir no mundo digital. Já os jovens e adultos enfrentaram um jogo digital baseado em decisões e nas suas consequências, o “Locked Out”, aplicado a cenários de e-mails, faturas e outros conteúdos digitais.

“Tanto os projetos Rescueware como o INOCULUM incluem atividades de disseminação e sensibilização para este tipo de ataque e para técnicas de proteção. Através de diferentes jogos e atividades, conseguimos promover várias ações de ciber-higiene sobre este problema, que cada vez mais afeta os computadores pessoais e infraestruturas críticas, como a saúde”, explica João Paulo, investigador do INESC TEC na área de sistemas distribuídos e docente da Escola de Engenharia da Universidade do Minho.
A interoperabilidade, ou a capacidade de sistemas e dados de origens diferentes comunicarem entre si, foi outro dos temas em destaque. Com o jogo “A linguagem dos computadores”, os mais pequenos descobriram que uma mensagem só passa quando os dois lados conhecem o mesmo código. Os participantes mais jovens e adultos puderam testar-se em “Comandos trocados”, onde equipas guiaram o mesmo robô com palavras diferentes e percebem que partilhar palavras não chega, sendo que é preciso partilhar significados.
“É indispensável compreender como os sistemas de informação gerem, partilham e interpretam os dados. Nesta iniciativa, procurámos mostrar aos mais novos, de forma lúdica, a importância do contexto no significado das mensagens e a necessidade de compreender as ferramentas da sociedade moderna e como se pode preparar a sociedade do futuro”, explica Fábio Coelho, investigador do INESC TEC na área de sistemas distribuídos.

A ligação ao Centro Nacional de Computação Avançada (CNCA) fez-se através da computação de alto desempenho e da Inteligência Artificial (IA). Em “Sê um supercomputador!”, cada criança tornou-se um núcleo de processamento e ajudou a montar um puzzle em conjunto, tal como o supercomputador Deucalion resolve problemas gigantescos com milhares de processadores em paralelo. Também o jogo “IA ou humano?” desafiou os mais jovens a adivinhar quem criou um texto, uma imagem ou uma previsão meteorológica e a refletir sobre o treino de modelos e a ética da IA. Os visitantes puderam ainda explorar o que corre hoje no Deucalion, da previsão de catástrofes naturais à descoberta de fármacos, e comparar o tempo que cada problema levaria num portátil comum.
” Com estas atividades, quisemos aproximar o público do supercomputador Deucalion, e mostrar o que está por trás da inteligência artificial que hoje usamos no dia a dia. Através de um puzzle, de um jogo em que é preciso distinguir o que foi feito por uma IA ou por um humano e de uma demonstração de previsão meteorológica gerada em direto por um modelo de IA, procurámos explicar, de forma lúdica, que estes sistemas dependem de uma enorme capacidade de computação e que é importante compreender como funcionam e quais são os seus limites”, explicou Claúdia Brito, investigadora do INESC TEC na área de computação de alto desempenho e inteligência artificial.
Para visitantes mais velhos, “Cara a Cara” foi um jogo de memória com exames reais de ressonância magnética, no qual a anonimização das caras por um modelo de IA tornou os pares mais difíceis de identificar. Mostrou-se, na prática, o que significa proteger a identidade de um paciente e como isso permite reunir mais dados para treinar modelos que ajudam a detetar tumores.
“Com um jogo de memória, tentámos também apresentar a possibilidade de transformar dados sensíveis em dados privados, evidenciando ainda mais a capacidade de computação do supercomputador. Com estas iniciativas, demonstrámos também a sinergia existente entre a investigação desenvolvida no INESC TEC e as aplicações do dia a dia, com a equipa do Deucalion e com o supercomputador em si”, acrescenta a investigadora.

Por fim, “À caça dos dados”, dirigido a alunos do ensino secundário e superior, propôs uma corrida por uma base de dados de cinema, na qual cada consulta bem-feita revelava a pista seguinte. Pelo caminho, os participantes ficaram a conhecer os desafios da organização de dados e o trabalho do projeto ADAPQO, que procura superar o estado da arte, representado pelo DuckDB.
“Esta atividade permitiu transmitir ao público o desafio fundamental que um sistema de gestão de dados enfrenta ao responder a interrogações de utilizadores e aplicações, e que constitui o objetivo central do projeto ADAPQO”, explica José Orlando Pereira, investigador do INESC TEC e docente na Escola de Engenharia da Universidade do Minho.
Sobre a NEI
A Noite Europeia dos Investigadores (NEI) é uma iniciativa europeia anual de comunicação de ciência que aproxima investigadores e sociedade civil através de experiências interativas, acessíveis e gratuitas. Criada em 2005 pela Comissão Europeia, no âmbito das Ações Marie Skłodowska-Curie (MSCA), a NEI nasceu com um objetivo claro: aproximar a investigação científica das pessoas e mostrar que a ciência faz parte da vida de todos.
Celebrada em dezenas de países europeus, convida públicos de todas as idades a descobrir o impacto da ciência no quotidiano, promovendo o diálogo entre investigação, cidadania e território. A ideia não é apenas sensibilizar de forma passiva e unidirecional, mas sim partilhar como a ciência pode e deve contribuir para encontrar soluções para os problemas.
Porém, criar uma ligação duradoura entre ciência e sociedade exige mais do que um evento, pelo que os projetos financiados pelas MSCA, que celebram este ano o seu 30.º aniversário, desenvolvem atividades ao longo de todo o ano. Em Portugal, a NEI, em 2026 e 2027, é promovida através do projeto BRIDGES – Bridges for Science: Engaging Researchers, Schools, and Citizens for a Sustainable Future for Europe, financiado pela Comissão Europeia, e coordenado pelo ITQB NOVA, em parceria com a Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – e o i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde.

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