Clara Gouveia, administradora do INESC TEC, e João Peças Lopes, diretor do Instituto, participaram, a convite do Ministério do Ambiente e Energia, no Grupo de Aconselhamento Técnico (GAT) criado pelo Governo para propor soluções concretas de reforço da segurança e flexibilidade do Sistema Elétrico Nacional (SEN), face ao contexto de evolução do setor. As conclusões do grupo foram apresentadas no final de abril de 2026.
O GAT foi constituído em maio de 2025, na sequência do apagão ocorrido a 28 de abril desse ano e reuniu um total de dez especialistas independentes e de referência na área das redes elétrica, regulação, planeamento energético e tecnologias de sistema para produzir o relatório que agora foi apresentado publicamente. Ao longo de cerca de um ano, o grupo trabalhou na proposta de soluções concretas para o Sistema Elétrico Nacional, cujos resultados culminaram com a apresentação pública do relatório final à Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, a 27 de abril de 2026. Os trabalhos incidiram à volta de cinco domínio de análise: governança e regulação, modelo de planeamento, arquitetura do sistema, requisitos de geração e componentes de rede, digitalização e monitorização e soluções de mercado e serviços de sistema.
A segurança, resiliência e flexibilidade do SEN constituem uma prioridade estratégica para Portugal. Foi, nesse sentido, e com o objetivo de antecipar riscos, identificar vulnerabilidade e propor medidas, que o Governo pretendeu dotar-se de recomendações de base técnica e independente que apoiem a tomada de decisão relativamente à evolução do sistema elétrico nacional, garantido a sua segurança, confiança e resiliência ao serviço do interesse público.
Entre as principais recomendações do grupo destacam-se a necessidade de clarificar a governança do setor e simplificar o quadro normativo, reformular o planeamento das redes como um processo adaptativo capaz de lidar com a incerteza, e investir em componentes críticos como o armazenamento de energia, conversores em modo grid-forming e suporte dinâmico de tensão e frequência. Na área digital, o GAT recomenda a expansão das redes de monitorização em tempo real, o desenvolvimento de um digital twin do sistema elétrico ibérico, medidas que, em conjunto com novas funções analíticas e de apoio à decisão, integradas nos centros de despacho, contribuem para melhorar a capacidade de avaliação da segurança do sistema e definição de ações preventivas e corretivas num ambiente de elevada dinâmica e complexidade. No plano dos mercados, sublinha-se a necessidade de instrumentos de contratação de longo prazo e de novos serviços de sistema adaptados a um contexto de baixa inércia.
A estabilidade da rede elétrica será cada vez mais um dos problemas mais críticos para a robustez do sistema elétrico, como explica João Peças Lopes. “Face ao aumento significativo de produção de eletricidade de origem renovável, e tendo em conta o crescimento da rede elétrica para atender à crescente eletrificação e ligação aos centros electroprodutores, os problemas de estabilidade do sistema serão especialmente críticos para a sua operação, o que implica o reforço de investimentos em soluções de hardware pesado na rede elétrica, o reforço da capacidade de monitorização da segurança dinâmica do sistema e o recurso a novos serviços avançados de sistema.”, refere o investigador.
A digitalização é hoje um elemento central para garantir a segurança e a resiliência do sistema elétrico nacional, como explica Clara Gouveia. “Quando falamos de digitalização, referimo-nos, em primeiro lugar, à capacidade de monitorização do sistema em tempo real, suportada por aplicações analíticas que permitem avaliar continuamente a segurança e a estabilidade da rede e novas aplicações que apoiam a tomada de decisão e identificação atempada das ações de controlo mais adequadas. No entanto, esta maior observabilidade exige avanços adicionais, em primeiro lugar a nível da interoperabilidade dos dados. É crucial facilitar a partilha eficiente de informação entre os diferentes atores do sistema e entre áreas de controlo, assegurando consistência, qualidade e rapidez no acesso aos dados, o que irá facilitar a implementação de novos serviços e participação ativa dos recursos flexíveis”, conclui a administradora do INESC TEC, que integrou o GAT.
A participação do INESC TEC neste grupo reflete o alinhamento direto entre a investigação desenvolvida na instituição e as necessidades das políticas públicas no setor energético, uma das áreas estratégicas em que o INESC TEC tem vindo a consolidar uma posição de referência nacional e internacional. O trabalho realizado pelo INESC TEC há mais de 40 anos no domínio dos sistemas de energia constitui precisamente a base de conhecimento que sustenta recomendações deste tipo, demonstrando como a ciência aplicada pode e deve informar decisões de impacto sistémico.
Recorde-se que, depois do apagão, o INESC TEC produziu um position paper denominado “Retrospetiva e Lições de um Apagão” e vários artigos de comunicação de ciência, nomeadamente através da rubrica INESC TECWatch, para ajudar a sociedade civil a compreender o que aconteceu na Península Ibérica a 28 de abril de 2025.

Notícias, atualidade, curiosidades e muito mais sobre o INESC TEC e a sua comunidade!