Baixar o preço de um alimento próximo do fim da validade pode evitar que acabe no lixo. Mas onde colocar esse produto no supermercado? Na prateleira habitual ou numa área dedicada a descontos? E o que acontece quando os consumidores sabem que, ao final do dia, podem encontrar os mesmos produtos mais baratos numa plataforma de venda de excedentes?
Decisões como estas ajudam a determinar se o alimento é vendido, doado ou desperdiçado. E foi a partir desta perspetiva que investigadores de diferentes instituições internacionais se reuniram no Porto, entre 20 e 22 de setembro, para a terceira edição do Food Waste Workshop, coorganizada pelo INESC TEC e pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).
Ao longo de três dias, preços e descontos, gestão de inventário, comportamento dos consumidores, doação de alimentos, datas de validade, plataformas de combate ao desperdício alimentar, embalagens e logística estiveram entre os temas em discussão.
Uma equação que levanta uma questão: como podem dados, modelos matemáticos e ferramentas de apoio à decisão ajudar os diferentes intervenientes da cadeia alimentar a reduzir o desperdício e, ao mesmo tempo, conciliar esse objetivo com as decisões dos consumidores e com as necessidades logísticas e económicas das empresas?
“O workshop mostrou uma comunidade muito mobilizada em torno do desperdício alimentar, mas também muito diversa na forma como aborda o problema. Essa combinação gerou discussões muito ricas e abriu espaço para novas ideias e possíveis colaborações entre investigadores e profissionais”, explica Sara Martins, investigadora do INESC TEC.
Para o INESC TEC, que coorganizou o encontro com a FEUP, o tema não se esgota na organização do workshop. A redução do desperdício alimentar vem sendo objeto de investigação. Sara Martins esteve também envolvida no projeto BeFresh, onde o INESC TEC estudou outro fator com impacto no desperdício: o MLOR (Minimum Life On Receipt), critério utilizado para definir o período mínimo de vida útil que um produto deve ter quando é recebido por um retalhista.
A investigação analisou de que forma uma maior flexibilidade deste critério pode contribuir para reduzir o desperdício ao longo da cadeia, sem comprometer os restantes requisitos associados à comercialização dos alimentos. Pouco tempo depois do workshop no Porto, a tese de doutoramento da investigadora do INESC TEC Mariana Sousa, desenvolvida no âmbito do BeFresh, foi distinguida no EWG Retail Operations Annual Meeting, evento que aconteceu em Lisboa e onde se debateram os desafios atuais do setor retalhista.
Este episódio deve ser consumido de preferência durante o dia de hoje
Voltando ao Porto, Sara Martins levou ao encontro o artigo An Analytical Model for Display Strategies in Perishable Retail. Neste trabalho, como co-autora, procurou perceber como a localização dos produtos perecíveis com desconto pode influenciar simultaneamente as vendas e o desperdício alimentar.
Cada opção do retalhista influencia a facilidade com que os consumidores encontram esses produtos, a possibilidade de realizarem compras por impulso ou de substituírem um produto a preço normal por outro com desconto
“O trabalho mostra que não existe uma única estratégia de exposição que maximize o lucro em todos os contextos. Além disso, a estratégia que minimiza o desperdício alimentar nem sempre coincide com a que maximiza o lucro, o que mostra a importância de considerar diferentes objetivos e características da operação na tomada de decisão”, remata a investigadora.
Esta é a terceira edição deste encontro. A primeira, organizada pela Universidade Técnica de Munique, aconteceu em 2024 e, no ano seguinte, o evento migrou para a Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos da América. Entre profissionais do setor e investigadores, passaram pelo Porto 42 especialistas para aprofundar o debate sobre o desperdício alimentar nos sistemas alimentares.

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