A lista de investigadores do INESC TEC com doutoramento concluído voltou a crescer, na sequência das novas provas doutorais nas áreas de engenharia e gestão industrial e informática. Focadas na transformação digital na administração pública local, no comportamento do consumidor e na gestão de inovação em contextos de diversidade relacionada, as investigações reforçam a aplicabilidade do trabalho académico à indústria e impacto no dia-a-dia dos cidadãos, nomeadamente na influência de políticas públicas.
Transformação digital da administração pública local – a importância da literacia e de abordagem personalizada
A pandemia da covid-19 representou um marco na transformação digital da administração pública. O processo, que já estava em andamento, foi confrontado com um contexto de aceleração imposto pelas dinâmicas sociais daquele período – com os serviços locais a não constituírem uma exceção. No entanto, há várias condicionantes a considerar para além da vertente tecnológica. A componente humana é muitas vezes desvalorizada, em detrimento do investimento em sistemas, plataformas e ferramentas digitais.
Na sua tese de doutoramento, José Arnaud aborda as dificuldades em torno da literacia digital dos colaboradores, principalmente ao nível das competências, atitudes e confiança no uso das tecnologias. “A literatura abordava a transformação digital e a literacia digital, mas muitas vezes de forma separada, sem um modelo que explicasse claramente como estes dois fenómenos se relacionam no contexto específico da administração pública local”, descreve o investigador do INESC TEC. Nesta lacuna, o investigador viu uma oportunidade de investigação para o doutoramento em Ciência e Tecnologia Web da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).
Neste âmbito, foi desenvolvido um modelo explicativo para ajudar a compreender de que forma a literacia digital dos colaboradores da administração pública local pode potenciar ou limitar os processos de transformação digital. Nestes processos, a “heterogeneidade” da administração pública local revelou-se “um dos principais desafios”, uma vez que “cada município e cada serviço têm níveis muito diferentes de maturidade digital, recursos disponíveis e cultura organizacional”. A consideração destas nuances tornou a recolha de dados “mais complexa, exigindo um desempenho metodológico cuidadoso para garantir que o modelo explicativo fosse robusto e generalizável, sem perder sensibilidade às especificidades locais”.
Outro ponto que, de acordo com José Arnaud, mereceu especial cuidado foi a operacionalização dos conceitos de “transformação digital” e “literacia digital” – dois termos “amplos, usados de formas diversas na literatura e na prática”. Foi, por isso, “necessário definir indicadores claros, construir instrumentos de recolha de dados adequados e validar essas medidas para assegurar rigor científico”.
“A vontade de produzir conhecimento com utilidade prática para decisores públicos e responsáveis pela modernização administrativa foi um fator decisivo na escolha deste tema”, admite o investigador, que vê o foco no “papel central das pessoas e das suas competências” uma perspetiva relevante para a “definição de políticas públicas”, para o desenho de programas de formação e para o planeamento estratégico da administração pública local”. “Ao evidenciar que a literacia digital não é um elemento acessório, mas um fator estruturante da transformação digital, o estudo contribui para uma abordagem mais integrada e realista da modernização administrativa”, aponta José Arnaud.
Reduzir o desperdício alimentar através do estudo do comportamento dos consumidores
Depois de ter dedicado o mestrado à análise do comportamento do consumidor e a sua disponibilidade para pagar por produtos perecíveis ao longo da respetiva vida útil, Mariana Silva Sousa decidiu aprofundar este tema no doutoramento em Engenharia e Gestão Industrial. A motivação surgiu do “interesse em compreender de que forma o conhecimento sobre o comportamento do consumidor poderia ser mobilizado para melhor gestão deste tipo de produtos”. De acordo com a investigadora do INESC TEC, a tese “procura desenvolver métodos que permitam aos retalhistas gerir de forma mais eficiente produtos perecíveis, estudando tanto o ajustamento dinâmico de preços quanto a definição da gama de produtos disponíveis para a venda”.
A gestão eficiente dos produtos é uma problemática cada vez mais presente, com repercussões a nível económico e ambiental. Se, por um lado, as perdas de produtos com validade vencida e que não chegam a ser vendidos representam custos significativos para os retalhistas, por outro, continuam a engordar as estatísticas relativas ao desperdício alimentar. Com a crescente disponibilidade de dados e o aumento da capacidade computacional, os retalhistas dispõem hoje de melhores ferramentas para apoiar decisões complexas, abrindo também novas possibilidades para a investigação baseada em métodos quantitativos e dados empíricos. “É um tipo de abordagem que tem ganho destaque na investigação académica e desperta interesse crescente entre os retalhistas”, contextualiza a investigadora.
Ao longo da investigação foram exploradas abordagens que combinam “modelos de procura com métodos de reinforcement learning, permitindo analisar e otimizar estratégias de preço ao longo do tempo”. Simultaneamente, foi analisada “a otimização da gama considerando simultaneamente estas variáveis, procurando compreender como decisões de oferta e o preço podem ser articuladas de forma mais eficiente”. Mariana Silva Sousa espera que este trabalho possa contribuir para o “desenvolvimento de modelos mais realistas para a gestão de produtos perecíveis e sirva de base para futuras investigações que integrem ainda mais dados operacionais e comportamentais”.
Gestão de inovação em contextos diversificação relacionada
A investigação do doutoramento em Engenharia e Gestão Industrial de Marcella Mendes também teve origem em trabalhos anteriores, nomeadamente na área de gestão de inovação e tecnologia, no âmbito do mestrado e em experiências profissionais prévias. Desta feita, o desafio foi-lhe proposto pela EFACEC e visou a gestão de inovação em contextos de diversificação relacionada, ou seja, um ambiente que combina múltiplas oportunidades e desafios, devido à existência de várias unidades de negócio que partilham recursos e conhecimento. A exploração das sinergias internas, potencializadas por este contexto, assim como as fortes independências representaram o ponto de partida da investigação.
“Por se tratar de um trabalho que aproxima de forma muito direta a teoria (academia) e a prática (empresa), um dos principais desafios foi manter um alinhamento eficaz entre ambas”, recorda a investigadora do INESC TEC. Para atingir tal objetivo, foi necessário “compreender profundamente as necessidades práticas da empresa, sem comprometer o rigor metodológico e a robustez científica que um trabalho académico exige”.
Para Marcella Mendes, o desenvolvimento de competências de investigação foi um elemento “essencial” na hora de “compreender e responder às exigências da área da gestão de I&D e inovação, de forma sustentada”. Num momento em que as áreas em questão enfrentam “desafios significativos em diferentes setores e contextos”, um melhor entendimento do funcionamento destes processos em ambientes complexos, como os de diversificação relacionada, é não só especialmente relevante como útil para o avanço da gestão da inovação, através da criação de “insights relevantes também para outros contextos com níveis semelhantes de complexidade”.
Ainda no leque de resultados encontrados, Marcella Mendes destaca a compreensão e a sistematização, a um nível micro, do funcionamento dos mecanismos de I&D e Inovação em contextos de forte colaboração interna, instrumentos que são “influenciados por atributos específicos do ambiente organizacional”. Adicionalmente, a investigação também permitiu a validação de uma metodologia para medir e monitorizar o desempenho da inovação de diferentes unidades de negócio. “A expectativa é que estes contributos possam apoiar futuros trabalhos académicos e práticos, sobretudo no desenvolvimento de sistemas de gestão de inovação mais ajustados a contextos organizacionais complexos”, conclui a investigadora do INESC TEC.

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