Como apoiar um doutorando sem limitar a sua autonomia? Como ajustar a orientação a diferentes pessoas, momentos e contextos? E que papel têm a comunicação, a cultura e as próprias experiências do orientador nessa relação? Foram algumas das questões que estiveram no centro de The Art of PhD Supervision – Practical conversations on doctoral supervision: roles, relationships and challenges, uma iniciativa promovida pelo INESC TEC, que reuniu orientadores de diferentes áreas e níveis de experiência num ambiente prático e colaborativo. Ao longo do dia, os participantes, refletiram sobre a sua prática e, em conversa com os pares, discutiram sobre os desafios reais da orientação. O workshop foi dinamizado por Marco António Carvalho Filho, Professor of Health Professions Education Research e Programme Leader of LEARN, da University Medical Center Groningen (UMCG).
Uma responsabilidade partilhada
O ponto de partida foi precisamente uma visão mais ampla da supervisão: a experiência doutoral não depende apenas da relação entre orientador e doutorando, mas também das condições que a instituição cria para apoiar essa relação e promover o desenvolvimento de quem orienta. A iniciativa procurou, por isso, proporcionar um espaço menos expositivo e mais participado, onde fosse possível discutir desafios reais, aprender com a experiência dos pares e identificar necessidades para o futuro.
Muito mais do que acompanhar uma investigação
Organizado em quatro blocos interativos, combinando dinâmicas de enquadramento, reflexão individual, exercícios práticos e discussão entre pares, o workshop explorou diferentes dimensões da prática de orientação: o propósito educativo da supervisão doutoral e o desenvolvimento do doutorando como investigador, os diferentes estilos de supervisão e a necessidade de os adaptar ao longo do percurso, a influência da cultura na comunicação e nas expectativas e finalmente, os valores, experiências e crenças que moldam a identidade profissional do orientador.
Uma das ideias que mais ressaltou no evento foi a de que a supervisão vai “muito além do acompanhamento do projeto de investigação”, contribuindo também para a aquisição de conhecimentos e competências, para a integração numa comunidade científica e, sobretudo, para que o doutorando se torne um investigador autónomo, crítico e capaz de construir a sua própria identidade profissional. À medida que os participantes davam os seus testemunhos ficou claro que, para eles, o crescimento dos estudantes é uma das dimensões mais gratificantes da supervisão. Os orientadores salientaram a “satisfação e gratificação” decorrente de acompanharem a “evolução e crescimento dos estudantes”, vê-los ganhar autonomia e confiança, ajudá-los e simultaneamente aprender com eles. Deste processo resultam, não raras vezes, ideias de parcerias, aprendizagem mútua e crescimento conjunto.
As relações – um dos desafios mais complexos.
A análise deste trajeto, marcado por altos e baixos, não está completa sem uma reflexão sobre as principais dificuldades que os orientadores dizem enfrentar, com destaque claro para a “gestão da própria relação de supervisão”. Neste conceito lato incluem-se aspetos como falta de tempo, prazos e procrastinação, burocracia, desistências, dificuldades em dar feedback negativo, lidar com questões de saúde mental ou problemas pessoais. Surge ainda o desafio de encontrar o “equilíbrio adequado entre apoiar e dar autonomia, entre pressionar e dar espaço e entre orientar e evitar a microgestão”. A gestão e clarificação de expectativas revel aram-se também questões particularmente importantes.
Não existe uma única forma de orientar
Foi na base das anteriores dicotomias que se chegou aos diferentes estilos de supervisão: funcional, enculturação, pensamento crítico, emancipação e desenvolvimento de relação. Apesar de não constituírem categorias fixas, funcionam como um reportório que o orientador pode usar de acordo com o estudante, a fase de doutoramento e a situação. A reflexão dos participantes destacou, em particular, a necessidade de ajustar continuamente o equilíbrio entre estrutura e autonomia e entre “feedback e reassurance”, tornando a supervisão uma prática mais consciente e intencional.
Num processo em que fatores pessoais podem determinar o sucesso da tarefa a que o doutorando se propõe, não é possível não referir a importância que a cultura pode ter. Não apenas no que à nacionalidade diz respeito, mas também às culturas profissional, disciplinar e institucional e às experiências individuais. Tudo isto se irá refletir na comunicação – mais direta ou indireta -, no acompanhamento – mais ou menos próximo -, na forma de dar feedback, nas relações hierárquicas e de autoridade, na construção de confiança ou processos de decisão. Mais do que conhecer “regras” sobre diferentes culturas, a discussão apontou para a importância da curiosidade, abertura, autoconsciência e humildade cultural, bem como para tornar expectativas explícitas e procurar compreender o contexto do outro.
Finalmente, o evento salientou ainda que “ser orientador implica também refletir sobre quem somos enquanto orientadores”. Através de exercícios, os participantes exploraram dimensões da supervisão que nem sempre são fáceis de verbalizar, por envolverem valores, emoções, pressupostos, tensões, relações ou experiências marcantes. O exercício veio reforçar a ideia de que a supervisão não é apenas um conjunto de técnicas, mas sim uma prática moldada pelas experiências, valores e crenças de cada orientador.
Um espaço que os orientadores querem continuar a ter
O feedback recolhido após o workshop reforçou a relevância da iniciativa e a utilidade deste tipo de espaço. A avaliação média da utilidade da iniciativa para a prática de orientação foi de 4,8 em 5, todas as respostas atribuíram uma classificação de 4 ou 5 e 81% manifestaram interesse em futuras iniciativas.
Entre os temas que os participantes gostariam de aprofundar destacaram-se as conversas difíceis, a autonomia dos estudantes, a gestão de conflitos e a saúde mental e bem-estar. A possibilidade de criar uma comunidade de boas práticas foi o formato futuro mais selecionado, a par do interesse por sessões temáticas mais curtas, discussão de casos concretos e novos momentos de reflexão entre pares.
“Uma das ideias mais fortes que ficou deste workshop é que supervisionar um doutoramento vai muito além de acompanhar investigação ou resultados Implica ajudar cada doutorando a tornar-se um investigador autónomo, ajustando a supervisão às suas necessidades, ao momento do percurso e ao contexto. Foi igualmente importante criar um espaço em que os próprios orientadores pudessem parar, refletir sobre a sua prática e aprender uns com os outros.” destaca Sara Brandão, responsável pela iniciativa.
O feedback recolhido reforçou o interesse em dar continuidade a este tipo de espaços, privilegiando formatos práticos, participativos e assentes na aprendizagem entre pares e na discussão de desafios reais da orientação doutoral. O desafio agora é aproveitar essa aprendizagem para continuar a criar oportunidades que permitam tornar visíveis questões que fazem parte do quotidiano da orientação, mas para as quais nem sempre existe espaço de reflexão conjunta.

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