A dstelecom é um operador grossista de telecomunicações em Portugal, que desenvolve e opera redes de fibra ótica de acesso aberto.
Estivemos à conversa com João Faria, Innovation Manager na dstelecom e responsável pelo projeto K2D, que marcou o início do percurso de investigação da dstelecom na área da monitorização subaquática.
Como surgiu a colaboração entre a dstelecom e o INESC TEC e o que motivou essa aproximação?
A primeira colaboração entre a dstelecom e o INESC TEC surgiu no âmbito do K2D, um projeto financiado pelo PT2020. A experiência foi muito positiva e acabou por abrir caminho a outras colaborações. Desde então, já adjudicámos ao INESC TEC uma prestação de serviços de investigação, sem financiamento público, também na área da sensorização de fibra ótica. Mais recentemente, voltámos a juntar-nos no projeto Nau Azul, onde o foco será novamente a monitorização de fibra ótica submarina.
Voltando à origem desta aproximação, tudo começou quando surgiu a discussão em torno da substituição do anel submarino CAM. Sendo a dstelecom um operador grossista de redes de fibra ótica, vimos aí uma oportunidade. Temos experiência na gestão de redes partilhadas por diferentes operadores e considerámos que esse conhecimento poderia trazer valor à gestão de uma infraestrutura deste género.
Durante esse processo surgiu também a necessidade de utilizar os cabos submarinos para monitorizar fenómenos como sismos ou tsunamis. Era uma área tecnológica que não dominávamos e foi precisamente daí que nasceu o K2D. Criámos um consórcio que reuniu entidades da comunidade científica e académica, nacional e internacional, com experiência relevante no domínio do oceano e da tecnologia. Foi nesse contexto que começámos a trabalhar com parceiros como o INESC TEC e o MIT.
O projeto acabou por produzir resultados de que nos orgulhamos bastante, incluindo a realização de um piloto experimental em mar aberto. Para nós, foi também o ponto de partida para todo um percurso de investigação nesta área.
Que potencial vê a dstelecom na utilização das redes de fibra ótica também como infraestrutura de sensorização?
A utilização de fibra ótica para sensorização não é propriamente uma tecnologia nova. É um tema estudado e documentado na literatura há vários anos, embora existam diferentes níveis de maturidade.
Há uma vertente já bastante consolidada, ligada à monitorização estrutural através de sensores baseados em fibra ótica, em que temos pontos de medição específicos ao longo de uma infraestrutura. E existe uma outra vertente, que continua a evoluir rapidamente, em que a própria fibra funciona como sensor ao longo de vários quilómetros, permitindo detetar pequenas deformações mecânicas e vibrações em diferentes pontos do cabo.
Esta segunda abordagem tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos. Há vários fatores a contribuir para isso: o custo dos interrogadores óticos tem vindo a diminuir, existe uma procura crescente por soluções de monitorização e segurança de infraestruturas críticas, também muito associada ao atual contexto geopolítico, e temos hoje muito mais capacidade para tratar e interpretar as enormes quantidades de dados geradas por estes sistemas, nomeadamente através da inteligência artificial.
Por isso, vemos cada vez mais empresas interessadas nesta tecnologia, tanto enquanto utilizadores como enquanto fornecedores de soluções. E, do ponto de vista de quem já tem fibra instalada, o potencial é particularmente interessante porque permite tirar partido de uma infraestrutura que já existe e dar-lhe uma função adicional.
Na sismologia e na oceanografia, por exemplo, existe um enorme potencial em utilizar cabos submarinos como parte de sistemas de alerta precoce de terramotos ou para monitorizar o ambiente acústico subaquático, permitindo detetar fenómenos que podem não ser observáveis a partir da superfície.
Nas infraestruturas de transporte, a fibra que acompanha autoestradas ou linhas ferroviárias pode ser utilizada para criar uma espécie de representação digital em tempo real do que está a acontecer ao longo dessas vias. É possível identificar acidentes, alterações na velocidade dos veículos ou movimentações de pessoas e animais em zonas onde não deveriam estar.
Também no transporte de energia e de outros recursos existe bastante potencial. A mesma tecnologia pode ajudar a proteger fisicamente estas infraestruturas, detetar intrusões e identificar fugas ou outras anomalias em redes de gás, petróleo ou água.
É precisamente esta diversidade de aplicações que torna a tecnologia particularmente interessante para nós.
No projeto K2D, quais foram os principais desafios e resultados da aplicação desta tecnologia em cabos submarinos?
O K2D foi um projeto muito importante para a dstelecom porque marcou o início do nosso percurso de investigação na área da monitorização subaquática.
Foi também um projeto exigente. Tivemos desafios tecnológicos, mas também logísticos e regulamentares, sobretudo porque testar tecnologias em ambiente marítimo implica um nível de complexidade muito diferente daquele a que estávamos habituados.
Em termos de resultados, destacaria os pilotos experimentais realizados no âmbito do exercício naval REPMUS. Esse trabalho culminou com a instalação de um cabo submarino com cerca de dois quilómetros na ZLT Infante D. Henrique, em Tróia, algo que só foi possível com o apoio da Marinha Portuguesa.
Esse cabo permitiu-nos testar diferentes tecnologias de monitorização em condições reais, nomeadamente DAS, numa lógica de sensorização distribuída ao longo da fibra, e hidrofones, que funcionam como sensores em pontos específicos. Foi particularmente interessante podermos testar as duas abordagens no mesmo contexto e comparar o seu desempenho.
Que contributo tem o INESC TEC dado à dstelecom na exploração de novas tecnologias e de oportunidades de negócio?
Ao longo destes anos, o INESC TEC tem sido um parceiro com bastante impacto na dstelecom. Tem pessoas com uma capacidade técnica e de investigação muito forte, mas também com quem é fácil trabalhar, e isso faz diferença quando estamos a desenvolver projetos durante vários anos.
O domínio do mar, em particular, é extremamente exigente e tem muitas especificidades que nós, enquanto empresa de telecomunicações, naturalmente não dominávamos. A colaboração permitiu-nos adquirir conhecimento nessa área de uma forma que, sozinhos, teria sido muito mais difícil e demorada.
Mas o contributo vai além do conhecimento sobre o oceano. Temos aprendido bastante sobre novas tecnologias, metodologias de investigação e também sobre o próprio mercado. Esse conhecimento vai sendo construído ao longo do tempo e resulta muito da possibilidade de trabalharmos em conjunto de forma regular, discutindo problemas concretos e testando diferentes abordagens.
Olhando para os próximos anos, que novas áreas ou desafios tecnológicos gostaria de explorar em conjunto com o INESC TEC?
Nos próximos anos, um dos principais desafios que queremos explorar com o INESC TEC passa por evoluir as ferramentas de análise associadas aos sistemas de DAS — Distributed Acoustic Sensing — para conseguirmos extrair cada vez mais informação a partir dos sinais recolhidos pela fibra.
A tecnologia permite gerar enormes quantidades de dados. O desafio passa agora por perceber que outras variáveis conseguimos inferir a partir desses dados e como conseguimos transformá-los em informação realmente útil.
É aí que vemos a oportunidade de criar novas camadas de valor sobre a infraestrutura de fibra que já existe e, a partir daí, desenvolver soluções tecnologicamente mais evoluídas e com aplicação real no mercado.

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