Graça Barbosa e o INESC TEC encontraram-se em dezembro de 1990 e nunca mais se desencontraram. Contratada como assessora jurídica, a atual membro do Conselho de Administração e da Comissão Executiva liderou departamentos, formou pessoas e é uma das responsáveis pelo processo de autonomização do INESC Porto. No início dos anos 90, encontrou um “ambiente acolhedor” e, depois, tudo aconteceu muito rápido: o INESC TEC cresceu e Graça Barbosa cresceu com ele.
“Há uma coisa que tento fazer sempre: adaptar-me às novas circunstâncias. Não sou uma pessoa muito saudosista”. Quando Graça Barbosa conheceu o INESC, era tempo de “papel, papel e papel”. O primeiro computador teria de esperar uns largos meses, tendo, entretanto, partilhado um com a colega de gabinete. No início dos anos 90, no Largo de Mompilher, em plena baixa do Porto, encontra “um feto ainda em gestação”, como viria a descrever. O instituto estava ainda a uma década de distância de ocupar os blocos de quatro andares da atual morada, no Campus da Asprela. Rodeado por “cuidadores” atentos e dedicados, desatou a crescer rapidamente e Graça Barbosa seguiu-lhe o passo – adaptou-se sempre.
Contratada como assessora jurídica em dezembro de 1990, é, desde 2021, membro do Conselho de Administração (CA) e da Comissão Executiva (CE) do INESC TEC. Cresceu a ver o instituto fazer o mesmo – “cresceu uma criança saudável e bem-comportada”, aponta. No início, recorda, “era tudo muito familiar” e a proximidade marcava os dias de uma organização ainda confinada a alguns escritórios no coração da cidade. “Toda a gente se conhecia. Foi um ambiente que eu achei particularmente acolhedor. Depois, aconteceu tudo muito depressa. Antes, tínhamos a noção de que controlávamos praticamente tudo o que acontecia. Conhecíamos as pessoas todas. Pensei que esse crescimento fosse um bocadinho mais gradual. Mas adaptamo-nos a tudo”.
Departamento unipessoal
E para quem gosta mais de olhar para o devir do que para trás, quem prefere a atualização constante ao conforto, o “dinamismo” de uma instituição como o INESC TEC foi sempre trunfo para não arredar pé há mais de 35 anos. Desde dezembro de 1990 que Graça Barbosa está praticamente em regime de formação constante.
Não é para menos. Antes de os serviços administrativos se autonomizarem e prestarem apoio personalizado ao trabalho de mais de 700 investigadores, estavam concentrados no DIL – Departamento de Informação e Logística: contabilidade, apoio jurídico, recursos humanos, controlo de gestão, apoio à gestão, logística, entre outros. Graça Barbosa foi escolhida para responsável de uma unidade que seria um dos alicerces do INESC autónomo: o INESC Porto, em 1998.
“Ser a Responsável do DIL não foi fácil, porque passei a ter de lidar com muitas áreas de especialidade”. E foram aparecendo mais, como contratação pública, a transferência de tecnologia. Era a o feto a dar lugar à criança a esticar braços e pernas para fora do berçário.
“A minha função era assessoria jurídica, não estava tão integrada nos serviços mais operacionais. Dava apoio a todos, mas estava um bocadinho só.” Ainda se lembra de um uma troca de emails email entre o professor Artur Pimenta Alves e a BBC, em que era feita referência ao “legal department” do instituto. “’O nosso legal department’” era eu. Eu fartei-me de rir” – e repete o riso ao recordar a história. “O departamento era uma parte de mim”, comenta, com uma gargalhada.
INESC (made in) Porto
Não é de “manter distâncias”, diz-se “pouco estruturada”, liderou dezenas de pessoas à base de uma combinação de reconhecimento e autonomia. Experiência, sabedoria, paciência e compreensão aparecem frequentemente em conjunto por parte de quem partilhou com ela escritório, serviço e anos – e há mesmo um punhado de testemunhos que o provam. “Sou, como se costuma dizer, ‘chefe, mas pouco’. Respeito muito o trabalho das pessoas e reconheço sempre o trabalho de quem trabalha comigo. Mas também reconheço que tive alguma sorte com pessoas”.
Talvez tenha sido influenciada pela postura de Mário Jorge Leitão, antigo diretor, com quem trabalhou durante muito tempo, e, mais tarde, de Pedro Guedes de Oliveira – que sempre injetou “uma grande dose de confiança nas pessoas que liderava”, pontua.
Sente que foi esta postura que criou a avenida em linha reta para um INESC independente e autónomo a Norte, com a criação do INESC Porto. Um trabalho que ainda hoje “orgulha” a administradora: “Sinto que fizemos boa parte desse processo sozinhos. Pedi alguma opinião sobre os estatutos, mas basicamente fizemos tudo aqui, sem pedidos de ajuda extraordinários. E fizemo-lo porque tivemos o empoderamento e a confiança necessários para fazer isso”.
Uma pen pal, uma “mãezinha”
Nos primeiros dias de INESC, Graça Barbosa viu a confiança chegar de… Lisboa. “Apanha” um anúncio de um curso de gestão de recursos humanos a acontecer em Lisboa na secção de classificados no jornal. Aconteceu pouco tempo depois de terminar o curso em Coimbra, quando estava de volta a Vila Verde, onde nasceu, em busca de uma oportunidade na área. E é aqui que o futuro no INESC se começa a desenhar.
“Nesse curso, conheci várias pessoas, incluindo uma de quem fiquei particularmente próxima e com quem, depois, correspondia em papel. Era a Paula Dias, que ainda está no universo INESC. “Comecei a trabalhar numa instituição depois dessa estada em Lisboa, mas não gostava particularmente do trabalho. Uma vez, a Paula perguntou-me se eu não estaria interessada em trabalhar no INESC, porque iam contratar uma jurista para o Porto. E eu só disse: ‘claro que estou’”.
Seria a sua homóloga em Lisboa. No Norte, destaca o papel da “mãezinha das pessoas novas”, Regina Freitas, que “dava apoio direto à administração e conhecia as regras todas”. O INESC em Mompilher era como um “centro pequeno”: professores, investigadores, administrativos frequentavam os mesmos espaços, os mesmos restaurantes – o restaurante Ernesto, a dois passos do edifício, tem à mesa muita história dos primeiros anos de Instituto.
Sempre em viagem
Eram os anos do “feto em gestação”, do papel e da contenção. Depois, espraiou-se tanto que, escrevia Graça Barbosa em 2011, os “cuidadores” não tiveram outra alternativa “senão mudarem eles próprios, posicionando-se de outra forma perante ele: incutindo princípios, reforçando valores, estabelecendo as regras básicas e as balizas dentro das quais o jovem deverá ser autónomo e, espera-se, responsável”.
Fez – e faz – isso todos os dias. Acumula no CA pastas como gestão de conflitos de interesses, apoio jurídico, diversidade e inclusão, ou igualdade de género. “Áreas muito importantes”, reconhece, que foi seguindo mais de perto ao longo dos últimos 10 anos. “Tenho orgulho da instituição, gosto realmente do trabalho que faço todos os dias”, adianta.
Desde há 24 anos que sai de Matosinhos em direção à Asprela – no mesmo ano em que o INESC se mudou para o Campus da FEUP, foi viver para o município costeiro. Pelo meio dessas viagens, muitas outras: “O que gosto mesmo de fazer é viajar, viajar para sítios diferentes, viajar sempre.” Cabo Verde, Geórgia, a rota da Seda mais recentemente, com ideias de Japão e Nova Zelândia (talvez pelo encanto de um dos filmes preferidos – “O Piano”, de Jane Campion). “Tenho uma lista bem completa, bem grande do que ainda quero ver.” Enquanto não chega a próxima, viaja com os livros: “Estou sempre a ler. Tenho sempre coisas para ler. E também sempre a comprar livros, tenho uma lista de espera. Mas não leio muito rápido, só consigo ler à noite”.
O INESC TEC ocupa boa parte do dia há décadas e o plano passa por não conhecer outro emprego, outra rotina. “Sou suficientemente feliz para continuar por cá”, resume. Com pouco espaço para a saudade, muito para experimentar o que é novo, ainda tem gosto em “ver coisas diferentes”. Nunca aconteceu com o INESC TEC: “Há dias melhores, outros piores”, mas, mesmo tendo chegado a “idade da razão” – o INESC TEC celebra 41 anos, há que olhar por ele. Graça Barbosa é uma das “cuidadoras” mais dedicadas: conhece-o desde os tempos de “papel, papel e papel.”






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