As “compras” de Rita contam a história do INESC TEC 

Não deve haver laboratório no INESC TEC sem uma “compra” de Rita Barros. Responsável pelo Serviço de Apoio Jurídico, viu como o Direito pode ter “impacto direto, real e tangível” e já abriu concursos para braços robóticos – e para os objetos “mais exóticos”. Quando troca de papeis, é no cinema que se refugia – e até o traz para dentro do INESC TEC. A claquete soou há dez anos e a cena está para continuar. 

De certa forma, as paredes que todos os dias abraçam Rita Barros no INESC TEC acabam por contar a história. Entra-se no gabinete envidraçado a transbordar de luz e, ao fundo, Rita trabalha com uma torre colorida na retaguarda: nas centenas de pastas de arquivo cabe muito do que tem sido uma década a garantir os caminhos mais seguros para a tecnologia do INESC TEC chegar mais longe. No lado oposto da sala, as paredes foram ganhando cor à boleia dos quadros pintados pelo pai e do outro evangelho que trouxe para dentro de portas: o cinema. E os posters de clássicos afixados para “mostrar aos mais novos” da equipa o que de melhor já se projetou no grande ecrã são também reflexo do tempo a passar: a atividade do INESC TEC cresceu e a equipa do Serviço de Apoio Jurídico (AJ) também.  

Rita é responsável pelo serviço há quase cinco anos. E do que gosta mesmo é de já não apanhar o filme a meio – agora, tem “a ideia do todo” de uma instituição que viu crescer a partir da primeira fila. “É o que me dá mais gozo”, confessa. Percebe como a “máquina funciona”: como nasce uma ideia, começa um caminho e bate à porta do AJ para Rita e a equipa dissecarem os riscos, definirem a melhor estratégia ou encontrarem no mercado o elemento que lhe falta.   

É como se estivéssemos a falar de um puzzle – e Rita gosta de ter as peças todas. “No Direito, gosto muito da parte processual, porque gosto de perceber como é que tudo encaixa. Mas só quando trabalhas numa instituição como o INESC TEC é que percebes que o que fazes tem impacto real e tangível. Seja porque estás a abrir um concurso para comprar componentes para um robô ou porque estás a tratar de uma empreitada para uma bacia oceânica, que virá a integrar um centro de excelência. E o mais gratificante é que depois tu vês aquilo concretizado”. Rita via-o muitas vezes em mostras ou visitas de acompanhamento: “Gosto sempre de estar nesses momentos. De ver e pensar: ‘olha, aquilo que comprei foi para isto e faz a diferença.’” 

Um braço, um barco, uma bola de espelhos 

Quando Rita chegou, tudo era diferente. Ocupou um “gabinete muito pequenino” para dar os primeiros passos longe da academia. Saltou dos anfiteatros da Universidade do Minho, onde dava aulas, para trabalhar na área da contratação pública no INESC TEC. Percebeu logo que, mesmo dentro do ambiente familiar que encontrou, tudo seria diferente. “Foi uma sensação engraçada”, adianta: conseguiu perceber como é que aquilo que explicava num contexto de sala de aula funcionava na realidade. 

“Há também aquela ideia de que trabalhar em Direito num escritório ou numa instituição é estar preparado para encontrar um monstro burocrático. Mas nunca senti isso no INESC TEC. É diferente, porque as pessoas explicam aquilo que querem. Sentes-te parte do processo. Nós aqui tentamos simplificar o processo de contratação pública, porque é visto sempre como algo muito monstruoso, quase uma máquina burocrática, muito complicada. E nós procuramos simplificar um bocado, explicar como é que um procedimento decorre, o que é que é preciso, e depois a parte ‘chata’ e tudo o resto, fica nas nossas mãos”, explica. 

Ainda se lembra da primeira “compra”: um braço robótico. “Porque é que é preciso um braço robótico? O que é que se faz com um braço robótico?” E explicaram-lhe tudo sobre esse braço robótico. “Perceber que aquilo que eu estava a fazer tinha um impacto concreto na investigação e também, de um modo mais abrangente, na estratégia da instituição, foi algo que me deu muito alento, na altura”. 

“Epá, isto está a mudar” 

Depois daquele braço, muitos outros – e até peças “mais exóticas”. Melhor – e maior exemplo – uma embarcação. “Nunca imaginei que ia acabar a tratar da compra de um barco”, aponta, com um sorriso, numa referência ao Mar Profundo, o navio de investigação para teste de tecnologias marítimas do INESC TEC. Também já foi tempo de ir às compras por uma bola de espelhos – não para transformar gabinetes em pistas de dança, mas para enviar para o Massive, laboratório de realidade virtual do INESC TEC na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. 

Entre o que é preciso para um instituto de investigação funcionar no dia a dia aos pedidos “mais esotéricos”, Rita ocupa um lugar privilegiado para auscultar uma instituição em constante crescimento. “Como estive durante muito tempo na área da contratação pública, notava-se sempre um salto muito grande de ano para ano. E eu acho que o ritmo aumentou muito, principalmente pós-pandemia.”

Tudo diferente dos primeiros tempos, no gabinete ainda sem portáteis que partilhou com Vasco Rosa Dias – que continua ligado ao serviço e é Encarregado de Proteção de Dados da instituição – e Graça Barbosa, atual membro do Conselho de Administração. Este triângulo acabou por marcar os primeiros tempos de INESC TEC e acabaram por nortear a atitude que adotou para o devir. “[A Graça Barbosa] foi quem me acolheu, me passou muito a importância da autonomia, de sermos autónomos no nosso trabalho. Não obstante termos quem nos guie, mas darmos essa margem para nós podermos atuar e fazermos sugestões e propormos, às vezes, soluções um bocadinho fora da caixa.” No gabinete, ouvia as discussões acerca dos consórcios em que o INESC TEC marcava presença e ia vendo a pilha de prestações de serviço a crescer de ano para ano. “Ia-me apercebendo e pensando: ‘epá, isto está a mudar.’” 

O Trindade chega ao sofá 

Estava. E, para dar resposta, foi preciso ir buscar mais “formiguinhas que põem a máquina a trabalhar”. Rita gere agora um serviço com seis pessoas. Os dias começam sempre da mesma forma: com o pequeno-almoço que é uma espécie de reunião de equipa – e é o único momento do dia que se parece com uma rotina. E se conseguir ainda levar para a discussão o filme que viu no dia anterior, tanto melhor. Já foram tempos de sair do INESC TEC e ainda apanhar uma sessão no Cinema Trindade. Agora, com um filho em casa, o cinema é outro. A preferência recai sobre o sofá – com a ajuda da plataforma, dedicada ao cinema europeu, consegue ver o que escapa aos circuitos mais comerciais e ir fatiando a película por vários dias. Ergueu os posters dos clássicos em jeito de homenagem aos filmes preferidos, mas também para fechar o “gap” para os mais novos da equipa – “temos malta nos trintas, mas também nos vintes”. 

Nos vintes de Rita Barros, o Porto chamava mais. “Acho que aproveitei imenso o Porto e tudo o que o Porto tinha na altura certa. Eu gostava muito da Baixa do Porto quando ela começou ser engraçada. Agora já não consigo ir para lá, fico muito cansada. Prefiro outras zonas”. Há uma que nunca cansará: no Palácio de Cristal passeia e guarda memórias antigas. Ajuda ser a casa da Feira do Livro do Porto, onde não perde a oportunidade de ir em busca de romances ou distopias – melhor se tiverem a chancela da Alfaguara.  

Livros, filmes, códigos legais e páginas sublinhadas, cadernos – ainda guarda o bloco com as primeiros ensinamentos sobre o serviço – capas em cima de capas: Rita passou os últimos dez anos a dar sentido às histórias que lhe chegaram ao gabinete e encontrou sempre a solução para chegar ao braço robótico, à embarcação, ao pedido “esotérico”. Ainda não é certo em que ato vai este argumento, mas tudo parece encaminhar-se para um final feliz: “Gosto muito de trabalhar aqui, gosto das pessoas – são chatinhos, quando é preciso –, mas faz tudo parte. E vejo-me a continuar aqui, a ver o INESC TEC a prosperar e a contribuir para que ele continue a crescer”.  

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